sábado, 11 de agosto de 2012

Os Quatro Panteões || Capítulo 1 - Hades


Em meio à escuridão e ao frio, uma imensa fera rugia...

Enorme e sinistra, a besta sacudia suas três cabeças de forma voraz perante a carruagem que se aproximava. Uma carruagem grande e luxuosa, feita de um metal brilhante, semelhante à prata mas com um ar, como que mais opaco e frio. Por maior que fosse, a carruagem pareceria um mero brinquedo comparado à besta que rugia, um cão de mais de 6 metros, com três cabeças cheias de dentes afiados e do tamanho de cutelos, e seus olhos, ah seus olhos, vermelhos como o sangue e penetrantes como adagas que atravessam direto na alma. Seus olhos refletiam fúria e horror. Aquele era Cerberus, o guardião dos portões do submundo.

A lustrosa carruagem parou em vista da besta fera. Não havia cavalo algum a puxá-la, ao menos nenhum que olhos mortais pudessem encontrar. De dentro do veículo, uma figura levantou-se e fez um gesto de mão. Cerberus então o viu. Cerberus então entendeu. E mesmo aquele enorme e furioso cão, tão poderoso e mortal, tremeu de medo e abriu caminho para que a carruagem passasse. Aquele não era ninguém que ele devesse barrar, aquele era seu mestre. Aquele era o mestre de todas as coisas que haviam naquele Reino. Aquele era o deus do mortos.

A carruagem passou pelos portões sombrios e pelas dezenas de pilares de pedra que se seguiam, subindo até um teto que parecia infinitamente alto, inalcançável, aonde só a escuridão podia ser avistada. As únicas luzes presentes vinham das cintilantes e pitorescas chamas de fogo fátuo, cintilando ao longe, perto de montes e rochas, insuficientes para reconhecer qualquer coisa do gigantesco mundo sombrio ao qual pertenciam. Mas Hades não precisava de luz para enxergar, não ali! Há muito mais de mil anos aquele foi designado como seu reino e posse, e Hades já se acostumara a essa maldição.

O mundo dos mortos era infinitamente vasto mas também infinitamente vazio, e não fosse Hades o mais novo dos três filhos varões do titã Cronos, teria um reino melhor sido oferecido a ele. Seu irmão Zeus, por ter destronado o pai, recebeu todo a terra e céu ás suas ordens, além da liderança de todo o panteão de deuses que viviam no Olimpo. Poseidon herdou os belos e ricos reinos subaquáticos, cheios de belezas e maravilhas além da imaginação. Para Hades, apenas o frio, o escuro e a morte.

A carruagem parou, logo a frente de um rio. Estava agora no ponto de saída de seu reino, também chamado Hades, e se fosse em frente, através do rio, alcançaria o reino dos mortais. Mas não era esse o caminho que Hades ordenou quando Caronte veio em seu pequeno barco para levá-lo. Um deus com tantos servos a seu dispor como Hades poderia ter disposto de uma larga escolta, até mesmo de uma corte inteira para servi-lo durante todo esse caminho, poderia ter recebido um grande veleiro, puxado por condenados do tártaro ao seu dispor para guiá-lo em conforto e segurança, mas não havia nada disso. Era apenas ele e Caronte, remando sozinhos nas infindáveis correntes do Rio Aqueronte. Sua missão era secreta e ninguém mais poderia saber, nem mesmo Perséfone, sua esposa. Ela passava seis meses do ano na superfície, com a mãe, e o que Hades iria fazer não poderia cair no conhecimento dos outros Olimpianos. Caronte sabia apenas para onde iam e nada mais. Ele não iria tentar falar algo para mais alguém e ele bem sabia o que seu senhor poderia lhe fazer em retribuição.

Algumas horas se passaram, e depois de muito remarem contra a corrente, finalmente iam chegando, pouco a pouco, numa pequena ilhota de pedra, rente a uma das paredes que circundavam a borda mais externa do rio. Estavam num braço menor do Aqueronte agora, que ziguezagueava para longe das fronteiras com o mundo-vivo, dando meia-volta e então indo em direção a uma área mais profunda e inexplorada daquele reino, através de longos túneis que pareciam cavados na rocha muitas eras antes. A ilhota nada mais era do que um amontoado de rochas negras subindo ao lado das longas paredes de pedra, mas nestas havia um pequeno túnel, meio escondido, grande o suficiente para que uma criança entrasse em pé nele e só.

-Meu senhor- disse Caronte quando seu mestre desceu do barco subindo aos poucos na rocha- tem certeza disso?

-Cale-se- disse silenciosamente o deus, em tom grave e calmo, como era de sua natureza.

Caronte jamais havia remado naquela direção, nem nenhum outro servo do submundo havia chegado lá além do próprio Hades- chamavam-na de “rota vazia”, um braço profundo do rio que não pertencia nem ao Tártaro, nem aos Montes Elísios nem a nenhum dos outros reinos profundos dos mortos. O deus mandou seu servo esperar por seu retorno ali e então adentrou o estreito túnel, agachando-se para poder entrar. Outros deuses teriam achado um ultraje precisarem rastejar ou abaixarem-se o quanto fosse para entrar no lugar que fosse, mas aquilo era mais importante que qualquer tolo capricho, pensou Hades, conforme avançava mais e mais na direção do vazio.

E o vazio chegou. Tão escuro quanto antes, mas dessa vez Hades não podia ver. Afinal aquele não era mais seu reino, estava agora num lugar além de qualquer reino. Tentou dar mais um passo, na direção de um escuro que podia muito bem ser um abismo, mas havia chão ali. Um piso perfeitamente plano, diferente do que havia pisado até ali. O funesto deus levantou o capuz e afastou o grande manto negro que o cobria. Isso não ajudaria a enxergar nada naquele breu, mas era bom que, o que quer que espreitasse do outro lado, soubesse bem que ele não era qualquer um, mas uma importante divindade de um dos mais poderosos panteões que já existiram.

Seus olhos eram brancos e vazios, até mesmo suas pupilas eram totalmente opacas, e mesmo sendo um deus, todo o tempo que passou no submundo deixara-lhe com a pele branca e leitosa, com rugas profundas e a aparência cada vez mais distante das dos humanos da superfície. Não havia um único fio de cabelo, pelo ou barba em seu corpo, e por baixo de seu manto, vestia um robe também negro, que o cobria quase completamente. Em seu manto, havia meia dúzia de pedras incrustadas aonde ele se amarrava, ao redor de seu peito, mas tais pedras eram de ônix também negro, completamente opacas. Hades era uma figura sombria que lembrava o reino que reinava. Não a toa possuíam ambos, deus e reino, o mesmo nome.

Alguns minutos se passaram, ele esperou calmamente no estranho breu mas não ousou dar mais nenhum passo, ele se orgulhava em considerar-se um dos mais racionais entre os deuses, e não seria sensato aventurar-se demais em uma zona neutra. Finalmente uma chama distante, vinda de uma tocha, veio a aproximar-se. Era ele.

A figura portadora da tocha que veio recebe-lo era completamente diferente do velho senhor dor mortos. Aparentava ser um homem com mais de dois metros de altura, vestia uma túnica que deixava seu peito exposto, revelando uma pele escura e coberta por estranhas marcas e símbolos, cujos significados eram tão antigos que nem mesmo os deuses se lembravam mais. Na sua cabeça parecia haver uma espécie de elmo ou máscara....ou seria esse seu verdadeiro rosto? Provavelmente não, mas era difícil dizer, mesmo com as chamas cintilando ao seu lado. O que quer que fosse, parecia possuir a forma de alguma espécie de lobo ou talvez.... um chacal.

-Está atrasado- sussurrou Hades com sua voz grave e suave.- Pensei ter sido claro em nosso último encontro que, vide a situação em que nossos panteões estão prestes a se encontrar, nos adiantarmos ao máximo fosse vital.

-O tempo..- sussurrou numa voz abafada o alto ser, com uma voz ainda mais grave e completamente inumana-… o tempo não importa quando se está num local como esse, além da própria vida, além da eternidade. Vamos.

Os dois caminharam, seus passos ecoando através do estranho vazio interminável. Era difícil dizer com clareza, vide toda a escuridão que se encontravam, mas pareciam estar num imenso corredor, cujas paredes e tetos eram suficientes para acomodar mesmo um gigante de gelo ou Cerberus caso houvesse como passarem pelo estreito túnel por onde veio.

Conforme caminhavam, uma segunda luz, mais intensa, se aproximava. Provinda de uma estranha pedra verde, cravada no topo de um cajado do que parecia ouro puro, era carregada por o que parecia uma mulher encapuzada. Ela usava um manto sobre si mesma, cobrindo somente o lado direito do corpo, inclusive esse lado do rosto, como uma mortalha que escondia algo que já não mais respirava. O lado esquerdo revelava uma bela mulher em vestes cor de esmeralda. Seus cabelos negros e longos traziam uma certa vivacidade que seu outro lado dissipava, mas seu olho esquerdo e por outro lado, parecia encandecer de uma chama ainda mais sinistra e intensa do que a luz que provinha do cristal. Atrás dela havia uma porta aberta que dava no que parecia uma pequena sala mal-iluminada, havendo ali apenas uma mesa e três cadeiras velhas e gastas.

-Hades.....-disse a mulher quando se aproximaram- ….... Anúbis...... chegou a hora.

-Então é verdade mesmo?- perguntou Hades, seus olhos vazios encarando-a com perplexidade, sua testa enrugada contorcendo-se ainda mais em indagação- ele está mesmo morrendo? Se isso ocorrer, o equilíbrio completo dos quatro panteões será....

-Aqui não- acalmou-o a mulher- mesmo em uma zona completamente neutra, nem mesmo nós imortais, podemos ter certeza de que ninguém irá nos ouvir, nem mesmo os deuses conhecem tudo o que há a temer-se quando se está nessa escuridão. - apontou para dentro da sala atrás dela.

-Apenas nós, senhores da morte é que conhecemos e temos acesso a essa região, Hella... mas se insiste tanto - desdenhou o velho deus, antes que ele e Anúbis entrassem. Sentaram-se os três diante na mesa, e só então Hades percebeu o grande mapa que estava em cima dela. Parecia um mapa celeste, com estranhas anotações escritas por cima dele. No mapa havia quatro círculos riscados a tinta, como que a separar diferentes setores de algo.

-Isso tudo é desnecessário- prosseguiu enquanto Hella fechava a porta - o que haveria de tão terrível que três senhores de reinos da morte deveriam temer?

-Três não - interrompeu Anúbis - sei bem o quanto vocês Mediterrâneos pouco se importam com o que não está em seus próprios domínios, mas eu não sou senhor. Sou aquele que julga e aquele que encaminha, mas isso não vem ao caso agora, voltemos ao assunto. - virou-se para Hella e indagou - é verdade então, Odin está morrendo?

-Sim, ninguém sabe o que ocorre, nem como isso seria possível, mas é um fato.- Hella pegou o mapa na mesa e analisou algumas anotações - consegui isso aqui de um dos servos de meu pai. Um raríssimo artefato que em mãos hábeis pode revelar os reais domínios, sedes e fontes de poder e eternidade de todos os povos que desfrutam da imortalidade atualmente. Conheço bem meu pai para saber o tipo de coisa que ele deve estar planejando para fabricar algo desse porte.

-Boa coisa não deve vir quando se trata de Loki, realmente- era difícil saber o que pensava Anúbis enquanto dizia isso, sua máscara negra de chacal brilhanto perante as fracas luzes do ambiente, mas mesmo assim um ar de preocupação poderia ser sentido - creio que todos entendam que, assim que o patriarca do panteão nórdico morrer e o equilíbrio com os outros panteões for quebrado... para que uma guerra se deflagre, é questão de pouquíssimo tempo. Sugiro que prossigamos o quanto antes com nosso plano.

-E quanto ao quarto panteão? Terei mesmo eu tomar parte nessa missão? - perguntou Hades.

- Sei o quanto detesta sair de seus domínios, mas não temos outra opção. Eu estarei muito ocupada vigiando os próximos passos de meu pai, e Anúbis já tem uma missão que deve ser executada desde já. Resta a você iniciar contato com eles. - respondeu Hella enquanto enrolava o mapa.

-Creio que todos saibam o quão perigoso é o que estaremos fazendo durante o desenrolar dos próximos eventos. - Anúbis se levantou seus enormes braços cheios de marcas apoiando-se sobre a velha mesa - Mas SE der certo, e QUANDO der, todas essas guerras, toda essa dor, todo o sangue derramado... será tudo passado. Creio que mesmo um Mediterrâneo como você deseja isso no final de contas.

Hades encarou-o por um momento. Seus olhos vazios estudando-o, estudando tudo, estudando o passado e o presente, tudo o que já ocorreu, tantos séculos, tantos milênios.... de horror. E uma súbita culpa afligiu seu velho coração negro e secular.

- Sim..... - respondeu - que no final tudo tenha valido a pena. Que no final a paz venha definitiva....... e que seja tão definitiva quanto é a morte.........

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