- Eu já disse, ele não vai estar aqui...
-
Vai por mim, meu querido, vai estar!! É como o Cileno diz... quer achar
alguém, basta só seguir as fofocas que houve na rua! Ha!
Estavam
ambos caminhando em um denso pântano nas terras mais a leste do
Peloponeso. Já haviam passado por várias trechos da Gália, pelas
distantes montanhas a oeste e agora ali estavam, tão próximos de seus
lares de origem. Hermes e Dionísio, o mensageiro dos deuses e o senhor
dos vinhos, haviam se juntado para encontrar o paradeiro de um
misterioso inimigo e muitas fontes já haviam questionado. Cada um lhes
dera uma pista sobre o local que seria a atual localização do misterioso
deus, mas Hermes já começava a achar que estavam andando em círculos.
-
Relaxa Ligeirinho! Aquelas bruxas podiam ser doidas mas não são de
mentir, não pra mim! Muito menos aquela ninfa que encontramos naquele
vale. E você mesmo falou que as pistas pareciam promissoras! - comentou
calmamente Dionísio conforme andava através do pântano. Mesmo sendo
imensamente grande e gordo, parecia não ter dificuldade alguma em se
movimentar em meio à toda a lama e árvores retorcidas que, pouco a
pouco, tentavam em vão bloquear seu caminho.
-
Sabe, Zeus pode precisar de mim a qualquer minuto, já que eu sou como o
MENSAGEIRO dele, Dio. Não posso sumir por tanto tempo... e mesmo se
acharmos o cara... e então o que? Chamamos os outros deuses e pedimos
para ele esperar sentado?
-
Oooora, assim você me subestima! Sabe bem o quanto eu sou forte, não se
engane pela minha barriga... ela é puro músculo! HÁ!! E não se esqueça
que temos os leões! Eles não são simples feras como deve ter percebido!
Eu os criei especialmente para situações críticas afinal! - disse
apontando para a agora já distante colina aonde deixaram a carruagem e
os leões que a puxavam. Juntas das feras havia duas Ménades que o deus
trouxera consigo para cuidar da carruagem.
Hermes
ainda não havia se livrado da surpresa que tivera com esses leões:
rápidos como um relâmpago, as criaturas conseguiram acompanhá-lo sem
problemas durante todo o trajeto, mesmo o deus em momento algum tendo
diminuído a velocidade. É claro que usando-se de todo o seu esforço,
poderia correr e voar à níveis muito superiores, mas só o fato de terem
se mostrado tão velozes já o surpreendia além da conta. Eram comuns
relatos de feras gigantes e resistentes, poderosas e invencíveis, mas
nunca tão rápidas assim.
- Falando nisso Dio, onde exatamente você conseguiu essas criaturas?
-
Hááá!!! Longa história! Mas os tenho desde filhotes! Ganhei os pais
deles numa aposta já faz muito tempo.... nem sei o que aconteceu com a
mãe.... mas me disseram que o pai se perdeu numa daquelas planícies da
Argólida... bem perto daqui aliás, acho que chamam o lugar de Neméia ou
coisa assim.... Enfim, o bicho adorava brincar com os aldeões, mas sabe
como é, era um leão gigante e indestrutível afinal... dizem que um
daqueles heróis semi-deuses deu fim no pobrezinho, mas qual deles foi,
isso eu já não sei.
“Então......
aquele monstro da Neméia não era um filho de Tifão afinal....” pensou
Hermes após ouvir aquilo. Ele sabia bem de que criatura estavam falando,
e sabia BEM quem era o tal herói.... mas achou que era melhor que o
companheiro continuasse sem saber disso.
-
Então... estamos quase chegando margens do lago de Lerna, conforme a
ninfa nos falou - continuou o mensageiro, mudando de assunto. De acordo
com a ninfa, um grande ogro vestido em trajes do Norte, junto de uma
pequena tribo, invadira uma aldeia próxima das terras em que vivia, e
durante o ataque anunciava a todos que o combatiam ser invencível, pois
de acordo com ele, o grande deus Loki o havia abençoado e o tornado seu
leal guerreiro, e agora nada provindo daquelas partes do mundo poderia
pará-lo. Também ouvira membros de seu grupo planejarem ir para os
pântanos da Argólida, e que outros de seus iguais iriam para lá em
breve, pois poderiam planejar ataques a vilas de todo o Peloponeso. Se
Loki estivesse envolvido nisso, poderia estar lá, e eles deveriam estar
preparados.
A
lagoa com a qual se depararam não era um lugar bonito de se ver. Diziam
que a Hidra que ali vivera contaminara toda a ragião com seu veneno e
tudo o que se via agora era uma água suja e lamacenta, borbulhante, não
havendo nada vivo além de insetos por todo canto. Apesar destes não
chegarem perto dos dois deuses, o odor que ali pairava era diferente, e
logo um intenso cheiro ardente de podridão podia ser sentido. “Mais
ainda não é nada comparado aos cheiros que pairavam naquela festa do
Dio” pensou Hermes conforme procuravam por qualquer pista que indicasse
alguém ter estado ali.
-
E então? - Perguntou o gordo deus das festas, que após tentar se
agachar para procurar alguma pista, percebeu que não ia conseguir e
voltou a ficar de pé.
-
Bem.... vejo marcas de pegadas aqui e ali, embora uma chuva recente
pareça ter levado a maior parte... mas há alguns vestígios de fogueiras
também, e um rastro.... por ali! - disse Hermes, apontando para uma área
à esquerda, na qual parecia haver a escassa presença de uma trilha,
parcialmente bloqueada pelas densas e retorcidas árvores da região.
Os
dois recompuseram e caminharam cuidadosamente naquela direção, como
deuses, não havia mortal comum nem reles criatura capaz de feri-los, mas
a presença de um outro deus é outra história. Olhando em direção ao
lago e além dele, em direção à outra margem, ambos poderiam avistar uma
terra rochosa e estéril, com dois imensos amontoados de rocha que
formavam um vale, e dentro deste uma trilha que levava para fora daquele
pântano. Ali ocorrera a grande batalha contra o monstro. Ali se firmara
um dos doze trabalhos que consagraram o grande herói daquelas terras.
-
….. Foi feito um acampamento ali... há menos de dois dias......
tentaram esconder seus rastros mas estes são claros como água para meus
olhos - confirmou a veloz divindade quando na trilha adentraram. Com seu
caduceu, apoiou-se enquanto recolhia um pedaço de lâmina partida e a
examinava. - Realmente, esse tipo de aço não veio daqui.
-
HAAAAAAAAA!!! Isso é que eu chamo de o deus dos ladinos hein!! Você
podia ganhar uma boa fortuna se fizesse umas apresentações por aí, meu
querido!! - ria e falava com sua voz alta e alegre de festas. Dionísio
provavelmente desconhecia qualquer outro modo de falar afinal, pensou
Hermes.
-
Bom, se isso quer dizer que os sujeitos já saíram daqui... - prosseguiu
o deus dos vinhos - Então é melhora a gente sair também, não aguento
mais esse cheiro!! E piorou depois que o lago começou a borbulhar!!
- Borbulhar?
-
Sim, digo, já estava antes, mas parece até que piorou quando a gente
chegou aqui!! E esse cheiro horrível só piora, parece peixe podre
que....
Mas
não chegou a terminar a frase. Um tremendo estrondo pareceu balançar
toda a terra, e sacudir até mesmo a maior e mais velha árvore até o seu
âmago. Uma espécie de rugido, vindo do lago. Os dois deuses correram de
volta para ver o que fora, e lá estava. Gigantesca como uma montanha,
seus quatro olhos vermelhos e penetrantes em suas duas cabeças vorazes e
de aspecto furioso.
Suas
presas de ambas as faces afiadas como espadas e tao grandes quanto
estas. Sua pele escamada e grossa, de um verde muito escuro, quase negro
e mais resistente que qualquer metal conhecido nessa terra. A
gigantesca serpente erguia suas duas cabeças até os céus, em um frenesi
furioso. Havia sentido a presença dos dois seres, e parecia faminta e
cheia de vontade de matar.
-
Essa criatura.... não, não pode ser a Hidra! Ela já morreu há muito
tempo... e a aparência... é tão distinta! Que criatura é essa
afinal??!!! - Hermes sabia bem do que falava. Vira a Hidra com seus
próprios olhos no passado. Era diferente daquele novo ser, não só pela
quantidade de cabeças como por uma série de outras a características...
Mas
não havia tempo para pensar afinal! Uma das cabeças da serpente já
descia em sua direção, há uma velocidade tremenda, como um turbilhão de
horrores. Como um vento que mal se percebe, Hermes já se movera para
longe, evitando para si qualquer perigo. Dionísio por outro lado,
parecia ter feito questão de ficar ali, esperando.
- Dio!!!
A
obesa divindade sorriu, alegre e jovialmente, de um jeito que só ele
sabia fazer. Enquanto a temível fera se aproximava, ocupou sua mão
direita em arrumar seu grande topete roxo, enquanto a esquerda... esta
ele lançou, com um suave e gracioso movimento, em direção a temível
besta. Tão levemente que mal poderia considerar-se aquilo um soco de
qualquer tipo...
….Mas
foi o suficiente. O impacto gerado lançou para longe as águas do lago,
cobrindo de uma chuva lamacenta todos os grande montes rochosos e além. A
cabeça da serpente não resistira ao impacto e explodira em milhares de
partículas, todas lançadas à quilômetros de distância, atravessando
continentes. Uma cratera formara-se no chão logo abaixo de onde pisava o
deus.
-
Heh!! Se quiser, irmãozinho, eu te deixo brincar com a que sobrou!! -
joçou ao ver que a cabeça restante da criatura, mesmo contorcendo-se em
dor, também preparava-se para reagir.
Mas
esta outra mal teve tempo de lançar-se. Como um raio de luz, o
mensageiro dos deuses já havia pairado sobre ela, e ao redor dela
girara, tamanhas sendo sua velocidade e poder, que o pescoço da criatura
contorcera-se a ponto de girar várias vezes também. Depois de se partir
sobre si mesmo, os ossos da criatura não aguentaram e seu pescoço
desmontou, caindo aos poucos como um cobertor velho, para afundar com
sua cabeça morta em direção ás profundezas do lago.
-
Hehhá! Isso que eu chamo de um verdadeiro show meu querido! Ainda é o
mestre dos espetáculos, hein! - riu seu irmão enquanto aplaudia. Mas ele
não era o único aplaudindo.
Não, havia mais alguém ali!
- Você!! - ameaçou Hermes ao descer ao chão, novamente ao lado do irmão. - Revele-se!!
As
palmas continuaram, agora mais compassadas, frias e secas. O homem que
as fazia caminhava calmamente, vindo das profundezas do pântano pelo
visto. Era alto e magro, seu rosto era fino e pontiagudo. Portava uma
bela armadura cinzenta, feita sob medida, e uma bela e nobre capa
verde-claro caindo por cima dos ombros. Em seu rosto pálido esculpia-se
um imensamente largo sorriso, portador de pensamentos sádicos. Seus
cabelos eram brancos como a neve e corriam, longos, até suas costas.
Ele
não era o único novo “convidado” a aparecer. Logo os dois perceberam,
atrás de si, que novas criaturas estavam emergindo. Todas serpentes, dos
mais variados tamanhos e cores. Algumas possuíam chifres, outras
pareciam prestes a cuspir fogo, todas pareciam letais.
-
Vejo que deram fim em uma de minhas “experiências”, mas que seja,
tentativa e erro! E aquela ali nem forte era! - comentou o misterioso
homem com uma voz aguda e fria, embora parecesse transparecer uma
espécie de felicidade nela. Uma felicidade estranha e amoral. - Porque
não aproveitam e testam para mim meus outros experimentos vocês dois?
Não fazem ideia do que acontece quando magia de dois panteões tão
distintos é misturada em um só animal!!
As
criaturas prepararam-se para o ataque. Hermes sacou seu caduceu,
desembainhando-o como uma espada e nisso revelando uma fina e brilhante
lâmina escondida dentro dele.
- São muitos aqueles que tem contas a acertar com você, Loki!!
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