sábado, 11 de agosto de 2012

Os Quatro Panteões || Capítulo 5 - No Lago de Lerna

- Eu já disse, ele não vai estar aqui...

- Vai por mim, meu querido, vai estar!! É como o Cileno diz... quer achar alguém, basta só seguir as fofocas que houve na rua! Ha!

Estavam ambos caminhando em um denso pântano nas terras mais a leste do Peloponeso. Já haviam passado por várias trechos da Gália, pelas distantes montanhas a oeste e agora ali estavam, tão próximos de seus lares de origem. Hermes e Dionísio, o mensageiro dos deuses e o senhor dos vinhos, haviam se juntado para encontrar o paradeiro de um misterioso inimigo e muitas fontes já haviam questionado. Cada um lhes dera uma pista sobre o local que seria a atual localização do misterioso deus, mas Hermes já começava a achar que estavam andando em círculos.

- Relaxa Ligeirinho! Aquelas bruxas podiam ser doidas mas não são de mentir, não pra mim! Muito menos aquela ninfa que encontramos naquele vale. E você mesmo falou que as pistas pareciam promissoras! - comentou calmamente Dionísio conforme andava através do pântano. Mesmo sendo imensamente grande e gordo, parecia não ter dificuldade alguma em se movimentar em meio à toda a lama e árvores retorcidas que, pouco a pouco, tentavam em vão bloquear seu caminho.

- Sabe, Zeus pode precisar de mim a qualquer minuto, já que eu sou como o MENSAGEIRO dele, Dio. Não posso sumir por tanto tempo... e mesmo se acharmos o cara... e então o que? Chamamos os outros deuses e pedimos para ele esperar sentado?

- Oooora, assim você me subestima! Sabe bem o quanto eu sou forte, não se engane pela minha barriga... ela é puro músculo! HÁ!! E não se esqueça que temos os leões! Eles não são simples feras como deve ter percebido! Eu os criei especialmente para situações críticas afinal! - disse apontando para a agora já distante colina aonde deixaram a carruagem e os leões que a puxavam. Juntas das feras havia duas Ménades que o deus trouxera consigo para cuidar da carruagem.

Hermes ainda não havia se livrado da surpresa que tivera com esses leões: rápidos como um relâmpago, as criaturas conseguiram acompanhá-lo sem problemas durante todo o trajeto, mesmo o deus em momento algum tendo diminuído a velocidade. É claro que usando-se de todo o seu esforço, poderia correr e voar à níveis muito superiores, mas só o fato de terem se mostrado tão velozes já o surpreendia além da conta. Eram comuns relatos de feras gigantes e resistentes, poderosas e invencíveis, mas nunca tão rápidas assim.

- Falando nisso Dio, onde exatamente você conseguiu essas criaturas?

- Hááá!!! Longa história! Mas os tenho desde filhotes! Ganhei os pais deles numa aposta já faz muito tempo.... nem sei o que aconteceu com a mãe.... mas me disseram que o pai se perdeu numa daquelas planícies da Argólida... bem perto daqui aliás, acho que chamam o lugar de Neméia ou coisa assim.... Enfim, o bicho adorava brincar com os aldeões, mas sabe como é, era um leão gigante e indestrutível afinal... dizem que um daqueles heróis semi-deuses deu fim no pobrezinho, mas qual deles foi, isso eu já não sei.

“Então...... aquele monstro da Neméia não era um filho de Tifão afinal....” pensou Hermes após ouvir aquilo. Ele sabia bem de que criatura estavam falando, e sabia BEM quem era o tal herói.... mas achou que era melhor que o companheiro continuasse sem saber disso.

- Então... estamos quase chegando margens do lago de Lerna, conforme a ninfa nos falou - continuou o mensageiro, mudando de assunto. De acordo com a ninfa, um grande ogro vestido em trajes do Norte, junto de uma pequena tribo, invadira uma aldeia próxima das terras em que vivia, e durante o ataque anunciava a todos que o combatiam ser invencível, pois de acordo com ele, o grande deus Loki o havia abençoado e o tornado seu leal guerreiro, e agora nada provindo daquelas partes do mundo poderia pará-lo. Também ouvira membros de seu grupo planejarem ir para os pântanos da Argólida, e que outros de seus iguais iriam para lá em breve, pois poderiam planejar ataques a vilas de todo o Peloponeso. Se Loki estivesse envolvido nisso, poderia estar lá, e eles deveriam estar preparados.

A lagoa com a qual se depararam não era um lugar bonito de se ver. Diziam que a Hidra que ali vivera contaminara toda a ragião com seu veneno e tudo o que se via agora era uma água suja e lamacenta, borbulhante, não havendo nada vivo além de insetos por todo canto. Apesar destes não chegarem perto dos dois deuses, o odor que ali pairava era diferente, e logo um intenso cheiro ardente de podridão podia ser sentido. “Mais ainda não é nada comparado aos cheiros que pairavam naquela festa do Dio” pensou Hermes conforme procuravam por qualquer pista que indicasse alguém ter estado ali.

- E então? - Perguntou o gordo deus das festas, que após tentar se agachar para procurar alguma pista, percebeu que não ia conseguir e voltou a ficar de pé.

- Bem.... vejo marcas de pegadas aqui e ali, embora uma chuva recente pareça ter levado a maior parte... mas há alguns vestígios de fogueiras também, e um rastro.... por ali! - disse Hermes, apontando para uma área à esquerda, na qual parecia haver a escassa presença de uma trilha, parcialmente bloqueada pelas densas e retorcidas árvores da região.

Os dois recompuseram e caminharam cuidadosamente naquela direção, como deuses, não havia mortal comum nem reles criatura capaz de feri-los, mas a presença de um outro deus é outra história. Olhando em direção ao lago e além dele, em direção à outra margem, ambos poderiam avistar uma terra rochosa e estéril, com dois imensos amontoados de rocha que formavam um vale, e dentro deste uma trilha que levava para fora daquele pântano. Ali ocorrera a grande batalha contra o monstro. Ali se firmara um dos doze trabalhos que consagraram o grande herói daquelas terras.

- ….. Foi feito um acampamento ali... há menos de dois dias...... tentaram esconder seus rastros mas estes são claros como água para meus olhos - confirmou a veloz divindade quando na trilha adentraram. Com seu caduceu, apoiou-se enquanto recolhia um pedaço de lâmina partida e a examinava. - Realmente, esse tipo de aço não veio daqui.

- HAAAAAAAAA!!! Isso é que eu chamo de o deus dos ladinos hein!! Você podia ganhar uma boa fortuna se fizesse umas apresentações por aí, meu querido!! - ria e falava com sua voz alta e alegre de festas. Dionísio provavelmente desconhecia qualquer outro modo de falar afinal, pensou Hermes.

- Bom, se isso quer dizer que os sujeitos já saíram daqui... - prosseguiu o deus dos vinhos - Então é melhora a gente sair também, não aguento mais esse cheiro!! E piorou depois que o lago começou a borbulhar!!

- Borbulhar?

- Sim, digo, já estava antes, mas parece até que piorou quando a gente chegou aqui!! E esse cheiro horrível só piora, parece peixe podre que....

Mas não chegou a terminar a frase. Um tremendo estrondo pareceu balançar toda a terra, e sacudir até mesmo a maior e mais velha árvore até o seu âmago. Uma espécie de rugido, vindo do lago. Os dois deuses correram de volta para ver o que fora, e lá estava. Gigantesca como uma montanha, seus quatro olhos vermelhos e penetrantes em suas duas cabeças vorazes e de aspecto furioso. 

Suas presas de ambas as faces afiadas como espadas e tao grandes quanto estas. Sua pele escamada e grossa, de um verde muito escuro, quase negro e mais resistente que qualquer metal conhecido nessa terra. A gigantesca serpente erguia suas duas cabeças até os céus, em um frenesi furioso. Havia sentido a presença dos dois seres, e parecia faminta e cheia de vontade de matar.

- Essa criatura.... não, não pode ser a Hidra! Ela já morreu há muito tempo... e a aparência... é tão distinta! Que criatura é essa afinal??!!! - Hermes sabia bem do que falava. Vira a Hidra com seus próprios olhos no passado. Era diferente daquele novo ser, não só pela quantidade de cabeças como por uma série de outras a características...

Mas não havia tempo para pensar afinal! Uma das cabeças da serpente já descia em sua direção, há uma velocidade tremenda, como um turbilhão de horrores. Como um vento que mal se percebe, Hermes já se movera para longe, evitando para si qualquer perigo. Dionísio por outro lado, parecia ter feito questão de ficar ali, esperando.

- Dio!!!

A obesa divindade sorriu, alegre e jovialmente, de um jeito que só ele sabia fazer. Enquanto a temível fera se aproximava, ocupou sua mão direita em arrumar seu grande topete roxo, enquanto a esquerda... esta ele lançou, com um suave e gracioso movimento, em direção a temível besta. Tão levemente que mal poderia considerar-se aquilo um soco de qualquer tipo...

….Mas foi o suficiente. O impacto gerado lançou para longe as águas do lago, cobrindo de uma chuva lamacenta todos os grande montes rochosos e além. A cabeça da serpente não resistira ao impacto e explodira em milhares de partículas, todas lançadas à quilômetros de distância, atravessando continentes. Uma cratera formara-se no chão logo abaixo de onde pisava o deus.

- Heh!! Se quiser, irmãozinho, eu te deixo brincar com a que sobrou!! - joçou ao ver que a cabeça restante da criatura, mesmo contorcendo-se em dor, também preparava-se para reagir.

Mas esta outra mal teve tempo de lançar-se. Como um raio de luz, o mensageiro dos deuses já havia pairado sobre ela, e ao redor dela girara, tamanhas sendo sua velocidade e poder, que o pescoço da criatura contorcera-se a ponto de girar várias vezes também. Depois de se partir sobre si mesmo, os ossos da criatura não aguentaram e seu pescoço desmontou, caindo aos poucos como um cobertor velho, para afundar com sua cabeça morta em direção ás profundezas do lago.

- Hehhá! Isso que eu chamo de um verdadeiro show meu querido! Ainda é o mestre dos espetáculos, hein! - riu seu irmão enquanto aplaudia. Mas ele não era o único aplaudindo.

Não, havia mais alguém ali!

- Você!! - ameaçou Hermes ao descer ao chão, novamente ao lado do irmão. - Revele-se!!

As palmas continuaram, agora mais compassadas, frias e secas. O homem que as fazia caminhava calmamente, vindo das profundezas do pântano pelo visto. Era alto e magro, seu rosto era fino e pontiagudo. Portava uma bela armadura cinzenta, feita sob medida, e uma bela e nobre capa verde-claro caindo por cima dos ombros. Em seu rosto pálido esculpia-se um imensamente largo sorriso, portador de pensamentos sádicos. Seus cabelos eram brancos como a neve e corriam, longos, até suas costas.

Ele não era o único novo “convidado” a aparecer. Logo os dois perceberam, atrás de si, que novas criaturas estavam emergindo. Todas serpentes, dos mais variados tamanhos e cores. Algumas possuíam chifres, outras pareciam prestes a cuspir fogo, todas pareciam letais.

- Vejo que deram fim em uma de minhas “experiências”, mas que seja, tentativa e erro! E aquela ali nem forte era! - comentou o misterioso homem com uma voz aguda e fria, embora parecesse transparecer uma espécie de felicidade nela. Uma felicidade estranha e amoral. - Porque não aproveitam e testam para mim meus outros experimentos vocês dois? Não fazem ideia do que acontece quando magia de dois panteões tão distintos é misturada em um só animal!!

As criaturas prepararam-se para o ataque. Hermes sacou seu caduceu, desembainhando-o como uma espada e nisso revelando uma fina e brilhante lâmina escondida dentro dele.

- São muitos aqueles que tem contas a acertar com você, Loki!!

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