sábado, 11 de agosto de 2012

Os Quatro Panteões || Capítulo 15 - Desafio Aceito


Os restos mortais foram trazidos pela manhã. Uma carcaça pútrida e sem vida alguma, menos que restos, mas restos que já pertenceram a um imortal. Não fosse o elmo que usava ter continuado intacto, seria impossível dizer que aquilo ali já fora Cérix, filho de Hermes, um  olimpiano.
  

Fora caçado e devorado por uma criatura que retornara do subterrâneo, apenas a primeira vítima de uma fúria e fome descontrolados. O pai não estava em lugar algum para saber da notícia. Hermes e Dionísio estavam ambos desaparecidos.
  
O resto do dia transcorrera-se bastante agitado entre os deuses.
  
Em uma grande sala cercada por estantes de livros, em uma parte afastada da morada divina que erguia-se sobre o Olimpo, Atena fitava Herácles por trás de uma longa mesa de mármore, seus olhos sábios e inteligentes estudavam o deus meticulosamente, como se pensasse e ponderasse sobre mil diferentes assuntos de uma só vez.
  
- Você precisa entender Herácles, desde seus tempos como mortal, sempre o guiei e o forneci toda a ajuda que sempre precisou, só o que peço agora é que possa contar com você, não importa o que aconteça, que seja leal àqueles que sempre o trouxeram dádivas.
  
Era verdade que de todos os deuses, Atena foi a que mais prezara quando vivera na Grécia como mortal. Herácles a ela muito devia por todas as suas aventuras. Aquela conversa entretanto...
  
Já não era a primeira conversa particular que tinha com um deus naquele dia, desde que o corpo de Cérix chegara e o desafio de Tifão fora ouvido. Não, Apolo fora o primeiro. Chamara-o para um longo discurso que tinha sobre como ambos eram parecidos, sobre como ele sempre fora o mais amado e querido dentre os deuses e aquele que melhor possuía as qualidades de um líder. Dissera a Herácles ideias sobre um mundo melhor que tinha em mente e como poderiam construí-lo juntos em um futuro próximo e que, o que quer que acontecesse na batalha, deveriam permanecer unidos. Herácles não entendeu bem do que se tratava tudo aquilo, talvez fosse a atmosfera caótica de batalha em que se encontravam, talvez o deus só quisesse ter certeza de que ele não os trairia caso um inimigo muito forte chegasse.
  
Depois veio Ares. O truculento deus da guerra aproximara-se dele, quando caminhava por um corredor. Disse-lhe como eram ambos poderosos guerreiros ,que sabiam muito bem das verdades sujas da guerra e não se prendiam a tolas músicas e ilusões. Disse-lhe que se fosse um verdadeiro homem, não se deixaria levar por qualquer “farsa” ou “embuste” e ajudasse aqueles que são verdadeiros líderes capazes a terem seus direitos garantidos.
  
Outra conversa estranha. Era tudo confuso, talvez fosse o tipo de coisa que os deuses dissessem sempre em momentos de crise, talvez Herácles devesse apenas se acostumar com esse tipo de coisa. Enfim, lá estava Atena, pedindo-lhe lealdade também.

Será que os deuses duvidavam que fosse capaz de lutar ao lado deles caso Tifão tentasse algo? Será que achavam que fosse fugir da batalha e deixá-los ou coisa parecida? Ou estaria apenas entendendo de forma errônea o que queriam dizer?
  
O quer que fosse, devia tirar da cabeça agora, a noite chegara, e com ela a tempestade. Todos os deuses foram convocados por Zeus. A hora finalmente chegara.
  
No topo do Olimpo, em pé à sua borda, Zeus fitava os céus, olhando fixamente na direção aonde o Monte Cássio se encontrava. Suas longa barba e cabelos brancos esvoaçavam ante aos frios ventos da noite. Visitara as soldas de Hefesto a pouco e de lá retornara, revestido de uma extraordinária armadura dourada. Revestidas de metais ancestrais e magias sagradas, adornada com os símbolos e runas de séculos atras. Presa às costas trazia o que parecia uma grande caixa dourada, cujas bordas emitiam um brilho claro como o Sol, provindo dos raios e armas que trazia dentro.
  
Atrás dele posicionaram-se Poseidon, Atena, Apolo, Ártemis, Ares e Deméter. Todos de pé, preparados para receberem as ordens do rei de seu panteão.  Outros deuses amontoavam-se ao redor deles, todos com seus olhares atentos voltados a Zeus.

Hera chegara depois de pouco tempo, vestindo um pomposo vestido de plumas de pavão, carregando nas mãos uma bela taça de néctar dos deuses. O marido o recebeu e bebeu seu conteúdo de uma só vez, estremeceu um pouco o rosto e devolveu o cálice.
  
Após tomar um pouco de ar, o rei dos deuses daquelas terras gritou, com sua retumbante voz:
  
- OUSA ME DESAFIAR DEPOIS DE JÁ TÊ-LO EU MESMO O DERRUBADO E MANDADO PARA OS CONFINS DAS TREVAS, VERME?! POIS BEM, TIFÃO, PELA MINHA HONRA  ACEITAREI SEU DESAFIO!!!!!
  
As palavras ecoaram tão alto quando os urros do monstro ao qual elas dirigiam-se a responder. Ele ouviria aquilo. Transformando-se numa imensa águia dourada, Zeus alçou voo e partiu para o Monte Cássio enfrentar seu destino.
  
Após ele partir, ali, do topo das montanhas, uma longínqua e rubra nuvem podia ser vista. Uma nuvem que ficava maior e maior, como se estivesse se aproximando.
  
Os deuses silenciaram-se. Herácles pareceu confuso, mas eles pareciam saber do que se tratava, como uma lembrança ruim que a séculos tentavam esquecer.
  

- Dragões... - murmurou Ártemis.



  








Em algum lugar em meio a montanhas, distante do Olimpo ou do Monte Cássio:

O céu estava escuro e fechado. Nuvens densas cobrindo-o até onde o olho alcança.

Os ventos cortantes e gelados atravessavam as montanhas, cortando o vale como uma cortina de frio e morte. Sons de trovões podiam ser ouvidos, distantes, como abafados tambores de guerra anunciando presságios funestos, como uma sinfonia remota aclamando premeditadamente eventos obscuros.

Um relâmpago cingiu o ar e rachou a terra. O barulho do trovão logo o seguiu, um som elevado e majestoso. Um relâmpago que não era como os outros relâmpagos. Um trovão que não era como os outros trovões. Das cinzas do impacto que o raio deixara, uma figura levantou-se para novamente andar na terra. Em uma mão segurava uma lança, na outra... um martelo.

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