Os
restos mortais foram trazidos pela manhã. Uma carcaça pútrida e sem
vida alguma, menos que restos, mas restos que já pertenceram a um
imortal. Não fosse o elmo que usava ter continuado intacto, seria
impossível dizer que aquilo ali já fora Cérix, filho de Hermes, um
olimpiano.
Fora
caçado e devorado por uma criatura que retornara do subterrâneo,
apenas a primeira vítima de uma fúria e fome descontrolados. O pai não
estava em lugar algum para saber da notícia. Hermes e Dionísio estavam
ambos desaparecidos.
O resto do dia transcorrera-se bastante agitado entre os deuses.
Em
uma grande sala cercada por estantes de livros, em uma parte afastada
da morada divina que erguia-se sobre o Olimpo, Atena fitava Herácles
por trás de uma longa mesa de mármore, seus olhos sábios e inteligentes
estudavam o deus meticulosamente, como se pensasse e ponderasse sobre
mil diferentes assuntos de uma só vez.
-
Você precisa entender Herácles, desde seus tempos como mortal, sempre o
guiei e o forneci toda a ajuda que sempre precisou, só o que peço
agora é que possa contar com você, não importa o que aconteça, que seja
leal àqueles que sempre o trouxeram dádivas.
Era
verdade que de todos os deuses, Atena foi a que mais prezara quando
vivera na Grécia como mortal. Herácles a ela muito devia por todas as
suas aventuras. Aquela conversa entretanto...
Já
não era a primeira conversa particular que tinha com um deus naquele
dia, desde que o corpo de Cérix chegara e o desafio de Tifão fora
ouvido. Não, Apolo fora o primeiro. Chamara-o para um longo discurso
que tinha sobre como ambos eram parecidos, sobre como ele sempre fora o
mais amado e querido dentre os deuses e aquele que melhor possuía as
qualidades de um líder. Dissera a Herácles ideias sobre um mundo melhor
que tinha em mente e como poderiam construí-lo juntos em um futuro
próximo e que, o que quer que acontecesse na batalha, deveriam
permanecer unidos. Herácles não entendeu bem do que se tratava tudo
aquilo, talvez fosse a atmosfera caótica de batalha em que se
encontravam, talvez o deus só quisesse ter certeza de que ele não os
trairia caso um inimigo muito forte chegasse.
Depois
veio Ares. O truculento deus da guerra aproximara-se dele, quando
caminhava por um corredor. Disse-lhe como eram ambos poderosos
guerreiros ,que sabiam muito bem das verdades sujas da guerra e não se
prendiam a tolas músicas e ilusões. Disse-lhe que se fosse um verdadeiro
homem, não se deixaria levar por qualquer “farsa” ou “embuste” e
ajudasse aqueles que são verdadeiros líderes capazes a terem seus
direitos garantidos.
Outra
conversa estranha. Era tudo confuso, talvez fosse o tipo de coisa que
os deuses dissessem sempre em momentos de crise, talvez Herácles
devesse apenas se acostumar com esse tipo de coisa. Enfim, lá estava
Atena, pedindo-lhe lealdade também.
Será
que os deuses duvidavam que fosse capaz de lutar ao lado deles caso
Tifão tentasse algo? Será que achavam que fosse fugir da batalha e
deixá-los ou coisa parecida? Ou estaria apenas entendendo de forma
errônea o que queriam dizer?
O
quer que fosse, devia tirar da cabeça agora, a noite chegara, e com
ela a tempestade. Todos os deuses foram convocados por Zeus. A hora
finalmente chegara.
No
topo do Olimpo, em pé à sua borda, Zeus fitava os céus, olhando
fixamente na direção aonde o Monte Cássio se encontrava. Suas longa
barba e cabelos brancos esvoaçavam ante aos frios ventos da noite.
Visitara as soldas de Hefesto a pouco e de lá retornara, revestido de
uma extraordinária armadura dourada. Revestidas de metais ancestrais e
magias sagradas, adornada com os símbolos e runas de séculos atras.
Presa às costas trazia o que parecia uma grande caixa dourada, cujas
bordas emitiam um brilho claro como o Sol, provindo dos raios e armas
que trazia dentro.
Atrás
dele posicionaram-se Poseidon, Atena, Apolo, Ártemis, Ares e Deméter.
Todos de pé, preparados para receberem as ordens do rei de seu panteão.
Outros deuses amontoavam-se ao redor deles, todos com seus olhares
atentos voltados a Zeus.
Hera
chegara depois de pouco tempo, vestindo um pomposo vestido de plumas
de pavão, carregando nas mãos uma bela taça de néctar dos deuses. O
marido o recebeu e bebeu seu conteúdo de uma só vez, estremeceu um
pouco o rosto e devolveu o cálice.
Após tomar um pouco de ar, o rei dos deuses daquelas terras gritou, com sua retumbante voz:
-
OUSA ME DESAFIAR DEPOIS DE JÁ TÊ-LO EU MESMO O DERRUBADO E MANDADO
PARA OS CONFINS DAS TREVAS, VERME?! POIS BEM, TIFÃO, PELA MINHA HONRA
ACEITAREI SEU DESAFIO!!!!!
As
palavras ecoaram tão alto quando os urros do monstro ao qual elas
dirigiam-se a responder. Ele ouviria aquilo. Transformando-se numa
imensa águia dourada, Zeus alçou voo e partiu para o Monte Cássio
enfrentar seu destino.
Após
ele partir, ali, do topo das montanhas, uma longínqua e rubra nuvem
podia ser vista. Uma nuvem que ficava maior e maior, como se estivesse
se aproximando.
Os
deuses silenciaram-se. Herácles pareceu confuso, mas eles pareciam
saber do que se tratava, como uma lembrança ruim que a séculos tentavam
esquecer.
- Dragões... - murmurou Ártemis.
Em algum lugar em meio a montanhas, distante do Olimpo ou do Monte Cássio:
O céu estava escuro e fechado. Nuvens densas cobrindo-o até onde o olho alcança.
Os ventos cortantes e gelados atravessavam as montanhas, cortando o vale como uma cortina de frio e morte. Sons de trovões podiam ser ouvidos, distantes, como abafados tambores de guerra anunciando presságios funestos, como uma sinfonia remota aclamando premeditadamente eventos obscuros.
Um relâmpago cingiu o ar e rachou a terra. O barulho do trovão logo o seguiu, um som elevado e majestoso. Um relâmpago que não era como os outros relâmpagos. Um trovão que não era como os outros trovões. Das cinzas do impacto que o raio deixara, uma figura levantou-se para novamente andar na terra. Em uma mão segurava uma lança, na outra... um martelo.
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