sábado, 11 de agosto de 2012

Os Quatro Panteões || Capítulo 7 - Nas Profundezas do Tártaro



O grande chacal, passo a passo aproximava-se de Heracles e Sobek. Seus olhos pareciam fixos no deus crocodilo, assim o deus crocodilo olhava firmemente a ele. Mesmo com a grande máscara cobrindo seu rosto, notava-se uma surpresa em seus olhos.

- É esse o tal ser que procuramos, crocodilo? - perguntou-lhe Heracles - É este Loki?

- Não... - respondeu o egípcio - não é Loki. Creio que eu sei quem ele seja, entretanto.

- Ele os libertou...... ele os libertou! Libertou! OS TITÃS FUGIRAM!!!!!!

Essas foram as palavras balbuciadas pelo Hecatônquiros, logo antes de cair novamente inconsciente. Todos ouviram, mas não houve tempo sequer para reagir. Não com tudo o que acontecera então, tudo de repente. Tudo ao mesmo tempo.

De um lado, o grande chacal pulou velozmente na direção dos dois. Heracles empunhou sua espada, mas não era ele o alvo. Sobek foi pego pelo monstro e jogado para longe, diretamente em uma parede de rocha à vários metros de distância. Do outro lado, um feroz rugido ouvia-se, e quando menos esperavam, um dos túneis mais próximos começou a desabar. De dentro dele, um vento uivante corria, gélido, e mesmo as chamas e magma quente que escorriam pareciam estar gradativamente congelando a partir daquela região. De repente, o calor e o extenso cheiro de enxofre se foram, deram lugar a um frio extremo e congelante. O próprio mar de lava logo se tornara um mar congelado.

E de lá eles saíram, primeiro um raio de luz, tão claro que durante dois segundos iluminou a todo o tártaro e transformou em um momentâneo branco toda a paisagem vermelho escuro. O raio de luz caíra ao chão próximo de Apolo e do Hecatônquiros caído, derretendo o chão logo abaixo de onde pousara. Em seguida, uma grande mão levantava-se do túnel. Seus dedos eram longos e de um azul claro e gélido. Por fim saíra do túnel revelando-se como uma imensa entidade, de pele azul-claro e pedregosa, como se fosse feita de puro gelo. Sua face parecia congelada e sem qualquer expressão. Não possuía cabelo ou barba e vestia-se apenas com uma grande lona de tecido verde cobrindo-lhe da cintura pra baixo.

- Aqui estão vocês.... - disse uma voz que saía de onde o raio de luz pousara. Lá estava um estranho homem. Vestia uma armadura de bronze, já velha e enferrujada, estranhamente porém, permanecia bela e suntuosa, com o nobre ar de uma armadura de um rei. Um grande elmo liso cobria-lhe quase toda a cabeça e até mesmo o rosto, deixando-lhe a vista apenas os olhos, dos quais incessantes faíscas douradas de luz não paravam de sair. O homem levantou as mãos e com elas atirou um raio de luz na direção de Apolo. Este tentou proteger-se interceptando-o com a lança, mas não aplicou a força necessária e foi mandado para longe. Teria caído diretamente na lava fervente e até mesmo perecido, não estivessem os rios escaldantes completamente congelados agora.

O gigante gélido levou a mão em direção a Ártemis. Esta, com suas flechas, atacou-o, movendo suas mãos como a hábil guerreira que era e disparando uma saraivada de flechas de uma só vez. As flechas entretanto pareciam não surtir efeito o bastante, e embora parecesse senti-las, o grande ser permaneceu sem esboçar qualquer reação.

A mão continuou vindo e Ártemis desviou. Um dos ciclopes entretanto, não teve tanta sorte. O poderoso Brontes, ao vir de encontro com a entidade, foi pego pela mão deste, e apesar de ambos possuírem a estatura de colossos, o ciclope ainda era menor. Ele urrara de dor quando a mão fechara ao redor de sua garganta. Ele tentou revidar, poderoso como era, dando fortíssimos murros no braço que o agarrava, e pela primeira vez, o grande ser azul pareceu sentir com intensidade algum golpe. Mas não foi o suficiente: enquanto fazia isso, um estranho barulho quebradiço vinha da mão que o segurava, e pouco a pouco seu rosto empalideceu-se. Uma fina camada de gelo parecia agora cobrir tanto a mão quanto o ciclope. O grande olho único parecia estar ficando roxo.

Tentando impedi-lo, Ártemis tentou pular em cima do gigante para pará-lo, mas Thanatos a parou, prevenindo-a:

- Contatos diretos não funcionarão com esse aí. Infelizmente os conheço. - comentou tristemente o fúnebre deus - são Crius e Hyperion. Dois dos titãs que deveriam estar sob nossa guarda, presos no Hades....... não entendo o que aconteceu!

Enquanto falava, o outro ciclope, Arges, já corria trazendo sua grande maça, brandindo-a contra Crio, que defendia-se com sua mão livre, agarrando a arma sem sofrer grandes danos. A cada golpe desferido, novos impactos colossais de ar gelado eram espalhados para todo canto, e mais e mais a maça começava a ser coberta por uma espessa camada de gelo. O mesmo tipo de camada parecia estar cobrindo Brontes, na outra mão.

Apolo ergueu-se novamente, preparando a própria lança numa posição de ataque, mas Hyperion, o titã da luz, já corria em sua direção como um feixe luminoso. Dessa vez Apolo desviou-se, também escapando por pouco dos dois raios de luz que o titã lançou de repente das mãos. No terceiro raio, Apolo tentou novamente defender-se com a lança, e dessa vez conseguiu.

- Crê que pode derrubar-me em meu próprio elemento, caído? - gritou Apolo, como um grito de guerra - pois também eu sou uma entidade da luz, e vou mostrar-lhe o verdadeiro poder que ela traz!!

Reunindo suas forças, ele pôs à frente sua lança e a girou, com inigualável rapidez e perícia, lançando então de sua ponta centenas de feixes dourados, velozes e trêmulos, cheios de energia estática. Hyperion liberou sua energia e os absorveu, mas a estática causou-lhe um choque profundo que o paralisou por alguns segundos, o suficiente para que uma segunda onda de feixes, esses maiores e em linha reta, o atingisse.

Dessa vez, foi o titã quem foi lançado longe. Recuperando-se rapidamente, ele partiu voando contra Apolo, rodopiando em um turbilhão que liberava intensa energia. À essa altura, a lança de Apolo já girava em velocidades inacreditáveis, sendo visível apenas como um grande disco luminoso se vista a olhos nus. O deus a usou para rebater o inimigo, e o impacto lançou ambos, cada um para um lado. Mas Apolo já estava preparado e, caindo em pé, lançou a lança giratória assim que tocou o chão. Hyperion ricocheteou em uma rocha, esmigalhando-a no processo e retornou furiosamente, ainda girando. A lança causou com ele um novo choque e enquanto voltava a ricochetear, Apolo pegou seu arco, pegou três flechas e então as lançou contra o ele. Mesmo em alta velocidade, o luminoso ser conseguiu parar das três com breves raios que liberara nos momentos certos, mas uma quarta já estava sendo lançada, e quando preparava-se para um novo raio, a lança que nele fora jogada retornava, girando, após rodar uma volta inteira ao redor de ambos.

A lança o atingira nas costas e a flecha diretamente no peito, atravessando a armadura e derrubando-o. Mas não fora o bastante! Hyperion ergueu-se novamente, pegou a flecha cravada em seu peito e a retirou como se não fosse nada. Algumas poucas gotículas de sangue poderiam ser vistas na ponta dela, mas era só isso.

- Vocês olimpianos - disse com a voz abafada pela parte do elmo que cobria-lhe o rosto - são mesmo a pior geração, não é?

Criou um novo feixe de luz, dessa vez mais curto e o empunhou como se fosse uma espada. Apolo já havia recuperado sua lança e ambos partiram, um para cima do outro.

Do outro lado, o poderoso ciclope Brontes dava seu último suspiro enquanto caía, morto. Seu corpo parecia ter tido cada gota de umidade congelada, e a maior parte da pele estava coberta da grossa camada de gelo, tão poderosa que mesmo de longe poderia sentir-se a intensidade desse frio. O ciclope Arges urrou em fúria, arremessando sua maça com todas as suas forças... mas o gelo que a cobrira a tornara fraca, e Crius a partiu como se fosse vidro, batendo com as palmas das mãos ao redor delare com isso criando um ruidoso estrondo.

O ciclope então sacou um longo martelo de guerra, que carregava nas costas e partiu em direção ao titã. Crius preparava-se para segurar o martelo, mas dessa vez seu inimigo foi mais rápido e o atingiu diretamente no rosto derrubando-o em um impacto de nível continental. Com um movimento constante, Arges desferiu golpe atrás de golpe no corpo do imenso caído, com uma brutalidade que poria medo até ao mais cruel dos assassinos.

Não era fácil derrotar um ciclope filho de Urano afinal... mas nem era fácil derrotar um Titã! Mesmo com os constantes ataques, Crius conseguia ainda se mover, virando o corpo em direção ao ciclope. Juntou ambas as mãos, e como um tornado, expeliu delas uma forte corrente de vento, tão poderosa quanto todos os ventos das superfície e mais gélida do que qualquer um deles. O ciclope era resistente e não deixou-se afetar-se pelo ataque, mas baixou a guarda por tempo o suficiente para levar um murro no queixo, sendo mandado mais longe do que mandado para muito mais longe do que mandara o titã anteriormente. Quando caiu, uma dura crosta de gelo podia ser vista na área de seu corpo que sofrera o impacto do soco.

Quando o titã já levantava-se para atacar, dezenas de flechas logo pousaram em sua nuca, todas atiradas velozmente por Ártemis. A deusa possuía tanta perícia quanto o irmão (talvez mais), e jamais errava seu alvo. Subira em uma das plataformas mais altas e de lá já preparava uma segunda saraivada.

Se possuísse qualquer expressão, Crius provavelmente estaria desdenhoso de tal ataque, que não lhe causara sequer dor, ou ao menos o faria antes das flechas explodirem em sua cabeça. A segunda saraivada caiu logo em seguida, dessa vez em seu rosto, e quanto explodiu, podia-se ver um grande sangramento em seu olho direito. Provavelmente o perdera...

- Não nos subestimem, acham mesmo que permitiremos que sua corja escape logo agora? Depois de tudo?! Voltem para as fossas profundas as quais agora pertencem!!! - gritou a deusa enquanto pulava por cima do enorme titã. Preparava o arco mais uma vez, mas dessa vez sem nenhuma flecha em mãos. Apenas puxara a corda do arco, usando-se apenas de um dedo da mão, e a soltou, conforme completava seu salto por cima dele.

Do arco saiu então uma chuva de faíscas, parecidas com as que saem de metais quando trabalhados em uma forja. Essas eram prateadas, e caíram por todo o corpo do titã, causando pequenas queimaduras por todo a pele azul-claro do gigante.

Crius tentou mover-se, mas as queimaduras, apesar de leves, pareciam ter paralisado parte de seus músculos, como se as faíscas tivessem atravessado por eles.

Enquanto isso, Heracles tentava enfrentar o grande chacal. Primeiro atirara alguns de seus dardos, embebidos do mortífero veneno da Hidra de Lerna. O chacal desviou dos três primeiros, e o quarto ele simplesmente agarrou com a boca e o cuspiu. Heracles então tentou lançar uma de suas flechas, mas o animal simplesmente a partiu ao meio com suas garras, num movimento rápido o bastante para interceptá-la sem qualquer dificuldade.

O chacal não parecia estar interessado em lutar. Deu de costas ao herói e correu em direção à plataforma pela qual entraram, aonde os soldados de Perséfone formavam um círculo para defenderem sua rainha.

- Não tão rápido! - alertou Heracles enquanto pulava na direção do chacal, dessa vez brandindo sua espada, mas a criatura desviara facilmente. Era ágil demais.

- Então... era isso o que queria? - disse uma voz detrás deles.

Era Sobek quem falava. Havia se levantado e retornava passo a passo até onde ambos estavam.

- Soube de antemão que visitantes estavam chegando ao Tártaro e quis distraí-los com os titãs que já libertou enquanto outro liberto termina de soltar os que faltam - disse o deus-crocodilo - mas porque eu lhe pergunto? Nunca fora um deus violento Anúbis....

- Você.... vocês! - disse o chacal com uma voz triste - não deveriam ter se intrometido nisso tudo. Não veem que com seus jogos de interesses mesquinhos só vão trazer mais desequilíbrio a esse mundo? Sinto muito irmão...

O chacal partiu novamente em direção ao deus, e arremessou-o novamente, agora contra uma plataforma próxima que desabou com o impacto. Pedaços de aço estilhaçavam-se por todo canto, poderia ter sido o fim dele.... mas...

Foi então que Heracles percebeu. No chão! Quase ao seu lado! Ali estava! A grande máscara de crocodilo de Sobek foi retirada pelo mesmo logo antes do impacto. E agora, o amontoado de aço no qual caíra..... começava a tremer!

Logo, uma nova forma levantou-se dos destroços, maior, muito maior do que a que caíra ali. Sua aparência intimidadora crescia cada vez mais com os olhos, garras, escamas, espinhos e mas garras para todo lado. E aquela boca gigantescamente longa, com dentes grandes do tamanho de crianças, enfileirados num sem fim de ferocidade.

O chacal deu passo pra trás. Ainda era Sobek quem iria enfrentar, mas agora... era um crocodilo do Nilo, tão grande quanto um prédio, ENORME e com presas e garras afiadíssimos por todo lado.... quem estava a sua frente.

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