sábado, 11 de agosto de 2012

Os Quatro Panteões || Capítulo 9 - Campos Elísios


Estava morto?
   
- ELE ESCAPOU!!!
  
Via à sua frente um belo campo de pastagens verdes. Um vento suave soprava sobre seu rosto. O doce aroma do outono chegava. O céu tinha uma cor estranha, não dava para saber se era dia, noite ou ambos... Estava morto?
   
- ELE VAI QUERER SE VINGAR! PODE SER O FIM DE TODOS NÓS!
  
Ouvira histórias daquele lugar. Há muito tempo, os antigos já contavam histórias sobre os Campos Elísios. Muitas vezes perguntava-se se teria direito de ir para lá uma vez que sua vida se esvanecesse, mas... Ele já havia morrido afinal. Nunca fora para tais Campos, pois os deuses e seu pai tinham outros planos para seu destino definitivo.
  
- TEMOS QUE AVISAR O OLIMPO!! TODOS TÊM QUE ESTAR PREPARADOS!
  
Não, não estava morto. Lembrava-se agora. A intensa batalha. O calor escaldante que logo se transformara no mais insuportável frio. O grito da besta que se movia sem para em direção a saída. E então tudo ficou confuso...
  
Mas agora ali estava, e os outros com que estivera também. Ou ao menos era o que parecia. Lembrava-se de ver um ciclope sendo morto, mas os outros pareciam estar lá. Até mesmo os Hecatônquiros!
  
Percebeu um barulho curioso ao seu lado, e assustou-se com o vulto caído, mas era apenas Hypnos, aproveitando a grama macia para dormir mais um pouco.
  
Logo, duas servas encapuzadas vieram lhe ajudar. Cuidaram de um estranho ferimento em seu peito que Heracles não lembrava quando fora causado. Estava estancado, coberto por faixas finas como seda, mas pareciam ser de outro material... Talvez algo que só fosse encontrado por lá. Ainda assim, podia-se ver a marca de uma cicatriz por baixo. Ela formigava um pouco, mas já não doía. Nem imaginava que deuses podiam receber cicatrizes afinal!
  
Após levantar-se e vestir novamente seu manto de pele de leão, Heracles avistou Apolo e Ártemis conversando com Perséfone e seus guardas pouco adiante. Eram de lá que vinham os gritos que ouvira. O Deus das artes parecia muito furioso, gritava sobre como ela não deveria tê-los deixado para trás, sobre como deveria tê-los ajudado.
  
Perséfone parecia não se importar muito... Na verdade, não parecia estar prestando atenção nele, era possivelmente a única não demonstrando traços de desespero rente ao que aconteceu.
  
Havia razões para fúria. Os antigos inimigos de seu panteão estavam de novo livres nesse mundo. E ainda aquele outro... Não havia tempo a perder. Sabe-se lá o que iria ocorrer agora, nem os deuses o saberiam mais.
  
Mais a frente, as monstruosas criaturas que tantas mãos e cabeças tinham eram tratadas de seus ferimentos. Junto delas estava Thanatos, assim como o ciclope que sobrara. Só havia um individuo ali que se encontrava ausente, apenas...
  
- Diga a eles minhas condolências, pois terei que partir. - disse Sobek, em pé e altivo, às suas costas.
  
- O que?
  
- Sei que naturalmente desejam explicações, como por exemplo, a identidade da criatura que libertou seus inimigos, mas agora não é a hora. Chegará o momento em que lhes darei a explicação que desejares. - disse conforme ia andando, calmamente. Estavam todos muito ocupados para percebê-lo.
  
- Espere, porque acha que não avisarei a Apolo que está partindo? - gritou-lhe Heracles - Acha que ele não desconfia de seu panteão? Acha que ele não te enfrentará se preciso?
  
- Você pode ser ingênuo, meu jovem, mas sei que há um pouco de justiça em sua alma. Olhe em meus olhos, vê alguma culpa neles?
  
Não era muito fácil ver seus olhos com aquela máscara, mas ele tentou mesmo assim.
  
- Sei que posso confiar em teu julgamento por hora, outrora-homem! - prosseguiu o deus do Nilo - pois ainda não foi deturpado por todo o orgulho e prepotência que aflige as almas dos ditos imortais!
  
E assim partiu. Atravessou os campos em direção a um belo portão feito de diamantes, a única abertura visível dentre o alto muro cinzento que circundava toda aquela região. De lá sairia na região principal do Hades, sumindo de vista.
   
Apolo ficará furioso... - pensou Heracles.
  
E ficou. Assim como Ártemis, embora esta parecesse estar sempre mais comedida quando na frente do irmão. Talvez porque a própria natureza de Apolo em si tenha sido sempre comedida e equilibrada... O que não o impediu de ficar furioso numa situação como essa, afinal.
  
Mas não houve muito tempo para pensarem nisso. Logo um dos guardas do submundo retornou, anunciando que um dos prisioneiros escolhera ficar para trás. A identidade dele talvez tenha sido tão chocante quanto à fuga em si.
  
De acordo com o que Heracles viera ha saber, fugiram ao total cerca de sete titãs de suas celas subterrâneas. Além de Crius e Hyperion, também fugiram a mensageira Arce, Jápeto, Menoécio, Palas, e aquele da pele de cor estranha que os atacara, o titã conhecido como Céos. Infelizmente, não foram os únicos a fugir. Também uma outra terrível criatura escapara, aquele que era dito pai dos monstros, aquele cuja fúria era capaz de causar tremor em ambos deuses e titãs. Poderiam todos ter sido obliterados em combate, se tivesse a criatura focado sua fúria neles ao invés de imediatamente ter fugido.
  
- Não teremos problemas só com eles se voltarmos a ver guerra - dizia Apolo, com a face sombria - Na Titanomaquia, muitos foram os titãs que por ficarem neutros ou trocar de lado, foram perdoados por Zeus e agora vivem entre nós. O que pensaram eles quando verem que falhamos em mantermos fora de alcance os parentes que traíram?!
  
Heracles não conhecia muito desses deuses que já foram chamados de titãs. Sabia que Hélios era um e havia também aquele que o salvara no Monte Cáucaso. Aquele que trouxera fogo aos homens.
  
Logo atravessariam os portões de diamantes. Thanatos era o guia agora. Ficou para trás o ciclope ferido, a própria Perséfone e Hypnos por que ele ainda estava dormindo e ninguém conseguia acordá-lo. Os Hecatônquiros retornaram a seus palácios subterrâneos, de onde vigiavam o Tártaro. Ártemis fora enviar a Zeus palavra do que ocorrera ali, tal situação desesperadora deveria ser avisada a todos o quanto antes. Os outros entre tanto, ainda tinham algo ha saber.
  
A plataforma que descia ao subterrâneo do Tártaro estava semi destruída. Pelo jeito, quando subiram, os titãs arremessaram a plataforma para longe de sua rota de fuga. Dois gigantes de aspecto grotesco e uma criatura humanóide já cuidavam de arrumá-la em seu lugar, de evitar qualquer problema, fosse isso possível.     
  
Os soldados ficaram para trás. Heracles mesmo ferido pediu para prosseguir, e assim o grupo de agora somente três deuses logo retornava àquele vil campo.
  
O frio intenso e insanamente abrangente no qual os titãs deixaram o local ainda perdurava, mas sinais de degelo já poderiam ser visto. Logo, todo aquele abrangente setor do submundo seria tão infernalmente quente quanto todos os outros vastos setores, divididos pelas paredes e túneis que os circundavam, formando juntos aquele reino grotesco, fétido e de extensões imensuráveis.
  
Apolo corria a passos apressados de quem reconhece a urgência dos eventos que podem surgir, mas em tão vasta imensidão, mesmo a pressa não adiantou para diminuírem sua viagem. Não era Hermes afinal.
  
Subiram numa carruagem negra que se movia mesmo sem ter-se em vista cavalo algum, pertencente ao próprio Thanatos. Partiram a toda velocidade, atravessando túneis repletos de podridão, estradas longas e pedregosas e subindo plataformas rangentes que percorriam tão longas distâncias que pareciam nunca alcançar seu destino.  
  
A carruagem parecia funcionar de formas curiosas. Eram ditas histórias sobre centenas de criaturas misteriosas habitantes do submundo. De todas as formas e tamanhos, elas viviam lá por adorarem a escuridão. Seriam cavalos invisíveis parte dessas centenas?
  
Quanto mais tempo passava no chamado Tártaro, mais Heracles desejava para si mesmo sair de lá para nunca mais voltar. O local não era nem de perto tão escuro quanto à porção principal dos reinos de Hades, aonde luzes especiais foram trazidas para permitir a entrada deles, mas os horrores, odores e sons que havia lá o faziam desejar que fosse. Mesmo no interior daquela carruagem, mesmo que agora estivessem dentro de um dos vários túneis, mesmo sem levar em conta os estranhos ossos pelos que estavam passando, ou as montanhas sombrias e negras que podiam ser vistas ao saírem de lá... Havia outra coisa, como uma sensação de que algo estava muito errado ali. E que mesmo um imortal poderia encontrar perigos aventurando-se em tais terras.
  
A lava e as chamas puderam ser novamente avistas quando percorreram o segundo setor do Tártaro, já longe de onde os poderes de Crius haviam interferido no clima local.
  
Logo atravessariam o túnel das celas. Logo chegariam. Logo, à frente do único que restou. Por quê? Por que ele decidiu ficar para trás?
  - CRRRUUUU-CRE-CRE-CRE-CRE-CRE-CRE-CRE! - riu insanamente o titã acorrentado.
  
Lá estavam diante dele. Imensuravelmente alto, mais de oito metros de altura. Diversas faixas de correntes escuras cobrindo-lhe o corpo. No passado tivera uma aparência quase tão altiva quanto ha de seu filho, embora maior e mais selvagem e bruto. Agora entre tanto, não passava de uma sombra do que já fora. Seu cabelo caíra e somente parcos fios sujos e grisalhos povoavam partes de sua cabeça ferida e cheia de cicatrizes. Um grande corte atravessava o queixo grande e quadrado. Usava apenas trapos, expondo seu corpo sujo e calejado, com marcas de feridas e a aparência esfomeada de um velho mendigo que há anos não visse sequer um pedaço de pão.
  
- CRRRUUUU-CRE-CRE-CRE! - riu novamente, expondo uma boca desdentada, que continha apenas três dentes podres - QUAL O PROBLEMA DE MEUS QUERIDOS NETOS E SOBRINHOS?! NÃO AGUENTARAM A REUNIÃO COM SEUS ANTEPAÇADOS?! OU VIERAM TODOS SE ACORRENTAR AQUI COMO EU?! SEM DÚVIDA SERÁ MELHOR DO QUE SOFRER O QUE ESTÁ PRESTES A CAIR SOBRE TODOS VOCÊS! CRRU-CRE!
  
E num acesso de histeria, Cronos riu.

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