Estava morto?
- ELE
ESCAPOU!!!
Via
à sua frente um belo campo de pastagens verdes. Um vento suave soprava sobre
seu rosto. O doce aroma do outono chegava. O céu tinha uma cor estranha, não
dava para saber se era dia, noite ou ambos... Estava morto?
- ELE
VAI QUERER SE VINGAR! PODE SER O FIM DE TODOS NÓS!
Ouvira
histórias daquele lugar. Há muito tempo, os antigos já contavam histórias sobre
os Campos Elísios. Muitas vezes perguntava-se se teria direito de ir para lá
uma vez que sua vida se esvanecesse, mas... Ele já havia morrido afinal. Nunca
fora para tais Campos, pois os deuses e seu pai tinham outros planos para seu
destino definitivo.
- TEMOS
QUE AVISAR O OLIMPO!! TODOS TÊM QUE ESTAR PREPARADOS!
Não,
não estava morto. Lembrava-se agora. A intensa batalha. O calor escaldante que
logo se transformara no mais insuportável frio. O grito da besta que se movia
sem para em direção a saída. E então tudo ficou confuso...
Mas
agora ali estava, e os outros com que estivera também. Ou ao menos era o que
parecia. Lembrava-se de ver um ciclope sendo morto, mas os outros pareciam
estar lá. Até mesmo os Hecatônquiros!
Percebeu
um barulho curioso ao seu lado, e assustou-se com o vulto caído, mas era apenas
Hypnos, aproveitando a grama macia para dormir mais um pouco.
Logo,
duas servas encapuzadas vieram lhe ajudar. Cuidaram de um estranho ferimento em
seu peito que Heracles não lembrava quando fora causado. Estava estancado,
coberto por faixas finas como seda, mas pareciam ser de outro material... Talvez
algo que só fosse encontrado por lá. Ainda assim, podia-se ver a marca de uma
cicatriz por baixo. Ela formigava um pouco, mas já não doía. Nem imaginava que
deuses podiam receber cicatrizes afinal!
Após
levantar-se e vestir novamente seu manto de pele de leão, Heracles avistou
Apolo e Ártemis conversando com Perséfone e seus guardas pouco adiante. Eram de
lá que vinham os gritos que ouvira. O Deus das artes parecia muito furioso,
gritava sobre como ela não deveria tê-los deixado para trás, sobre como deveria
tê-los ajudado.
Perséfone
parecia não se importar muito... Na verdade, não parecia estar prestando
atenção nele, era possivelmente a única não demonstrando traços de desespero
rente ao que aconteceu.
Havia
razões para fúria. Os antigos inimigos de seu panteão estavam de novo livres
nesse mundo. E ainda aquele outro... Não havia tempo a perder. Sabe-se lá o que
iria ocorrer agora, nem os deuses o saberiam mais.
Mais
a frente, as monstruosas criaturas que tantas mãos e cabeças tinham eram tratadas
de seus ferimentos. Junto delas estava Thanatos, assim como o ciclope que
sobrara. Só havia um individuo ali que se encontrava ausente, apenas...
-
Diga a eles minhas condolências, pois terei que partir. - disse Sobek, em pé e
altivo, às suas costas.
-
O que?
-
Sei que naturalmente desejam explicações, como por exemplo, a identidade da
criatura que libertou seus inimigos, mas agora não é a hora. Chegará o momento
em que lhes darei a explicação que desejares. - disse conforme ia andando,
calmamente. Estavam todos muito ocupados para percebê-lo.
-
Espere, porque acha que não avisarei a Apolo que está partindo? - gritou-lhe
Heracles - Acha que ele não desconfia de seu panteão? Acha que ele não te
enfrentará se preciso?
-
Você pode ser ingênuo, meu jovem, mas sei que há um pouco de justiça em sua
alma. Olhe em meus olhos, vê alguma culpa neles?
Não
era muito fácil ver seus olhos com aquela máscara, mas ele tentou mesmo assim.
-
Sei que posso confiar em teu julgamento por hora, outrora-homem! - prosseguiu o
deus do Nilo - pois ainda não foi deturpado por todo o orgulho e prepotência
que aflige as almas dos ditos imortais!
E
assim partiu. Atravessou os campos em direção a um belo portão feito de
diamantes, a única abertura visível dentre o alto muro cinzento que circundava
toda aquela região. De lá sairia na região principal do Hades, sumindo de
vista.
Apolo
ficará furioso... - pensou
Heracles.
E
ficou. Assim como Ártemis, embora esta parecesse estar sempre mais comedida
quando na frente do irmão. Talvez porque a própria natureza de Apolo em si
tenha sido sempre comedida e equilibrada... O que não o impediu de ficar
furioso numa situação como essa, afinal.
Mas
não houve muito tempo para pensarem nisso. Logo um dos guardas do submundo
retornou, anunciando que um dos prisioneiros escolhera ficar para trás. A
identidade dele talvez tenha sido tão chocante quanto à fuga em si.
De
acordo com o que Heracles viera ha saber, fugiram ao total cerca de sete titãs
de suas celas subterrâneas. Além de Crius e Hyperion, também fugiram a
mensageira Arce, Jápeto, Menoécio, Palas, e aquele da pele de cor estranha que
os atacara, o titã conhecido como Céos. Infelizmente, não foram os únicos a
fugir. Também uma outra terrível criatura escapara, aquele que era dito pai dos
monstros, aquele cuja fúria era capaz de causar tremor em ambos deuses e titãs.
Poderiam todos ter sido obliterados em combate, se tivesse a criatura focado
sua fúria neles ao invés de imediatamente ter fugido.
-
Não teremos problemas só com eles se voltarmos a ver guerra - dizia Apolo, com
a face sombria - Na Titanomaquia, muitos foram os titãs que por ficarem neutros
ou trocar de lado, foram perdoados por Zeus e agora vivem entre nós. O que
pensaram eles quando verem que falhamos em mantermos fora de alcance os
parentes que traíram?!
Heracles
não conhecia muito desses deuses que já foram chamados de titãs. Sabia que
Hélios era um e havia também aquele que o salvara no Monte Cáucaso. Aquele que
trouxera fogo aos homens.
Logo
atravessariam os portões de diamantes. Thanatos era o guia agora. Ficou para
trás o ciclope ferido, a própria Perséfone e Hypnos por que ele ainda estava
dormindo e ninguém conseguia acordá-lo. Os Hecatônquiros retornaram a seus
palácios subterrâneos, de onde vigiavam o Tártaro. Ártemis fora enviar a Zeus
palavra do que ocorrera ali, tal situação desesperadora deveria ser avisada a
todos o quanto antes. Os outros entre tanto, ainda tinham algo ha saber.
A
plataforma que descia ao subterrâneo do Tártaro estava semi destruída. Pelo
jeito, quando subiram, os titãs arremessaram a plataforma para longe de sua
rota de fuga. Dois gigantes de aspecto grotesco e uma criatura humanóide já
cuidavam de arrumá-la em seu lugar, de evitar qualquer problema, fosse isso
possível.
Os
soldados ficaram para trás. Heracles mesmo ferido pediu para prosseguir, e
assim o grupo de agora somente três deuses logo retornava àquele vil campo.
O
frio intenso e insanamente abrangente no qual os titãs deixaram o local ainda
perdurava, mas sinais de degelo já poderiam ser visto. Logo, todo aquele
abrangente setor do submundo seria tão infernalmente quente quanto todos os
outros vastos setores, divididos pelas paredes e túneis que os circundavam,
formando juntos aquele reino grotesco, fétido e de extensões imensuráveis.
Apolo
corria a passos apressados de quem reconhece a urgência dos eventos que podem
surgir, mas em tão vasta imensidão, mesmo a pressa não adiantou para diminuírem
sua viagem. Não era Hermes afinal.
Subiram
numa carruagem negra que se movia mesmo sem ter-se em vista cavalo algum,
pertencente ao próprio Thanatos. Partiram a toda velocidade, atravessando
túneis repletos de podridão, estradas longas e pedregosas e subindo plataformas
rangentes que percorriam tão longas distâncias que pareciam nunca alcançar seu
destino.
A
carruagem parecia funcionar de formas curiosas. Eram ditas histórias sobre
centenas de criaturas misteriosas habitantes do submundo. De todas as formas e
tamanhos, elas viviam lá por adorarem a escuridão. Seriam cavalos invisíveis
parte dessas centenas?
Quanto
mais tempo passava no chamado Tártaro, mais Heracles desejava para si mesmo
sair de lá para nunca mais voltar. O local não era nem de perto tão escuro
quanto à porção principal dos reinos de Hades, aonde luzes especiais foram
trazidas para permitir a entrada deles, mas os horrores, odores e sons que havia
lá o faziam desejar que fosse. Mesmo no interior daquela carruagem, mesmo que
agora estivessem dentro de um dos vários túneis, mesmo sem levar em conta os
estranhos ossos pelos que estavam passando, ou as montanhas sombrias e negras
que podiam ser vistas ao saírem de lá... Havia outra coisa, como uma sensação
de que algo estava muito errado ali. E que mesmo um imortal poderia encontrar
perigos aventurando-se em tais terras.
A
lava e as chamas puderam ser novamente avistas quando percorreram o segundo
setor do Tártaro, já longe de onde os poderes de Crius haviam interferido no
clima local.
Logo
atravessariam o túnel das celas. Logo chegariam. Logo, à frente do único que
restou. Por quê? Por que ele decidiu ficar para trás?
-
CRRRUUUU-CRE-CRE-CRE-CRE-CRE-CRE-CRE! - riu insanamente o titã acorrentado.
Lá
estavam diante dele. Imensuravelmente alto, mais de oito metros de altura.
Diversas faixas de correntes escuras cobrindo-lhe o corpo. No passado tivera
uma aparência quase tão altiva quanto ha de seu filho, embora maior e mais
selvagem e bruto. Agora entre tanto, não passava de uma sombra do que já fora.
Seu cabelo caíra e somente parcos fios sujos e grisalhos povoavam partes de sua
cabeça ferida e cheia de cicatrizes. Um grande corte atravessava o queixo
grande e quadrado. Usava apenas trapos, expondo seu corpo sujo e calejado, com
marcas de feridas e a aparência esfomeada de um velho mendigo que há anos não
visse sequer um pedaço de pão.
-
CRRRUUUU-CRE-CRE-CRE! - riu novamente, expondo uma boca desdentada, que
continha apenas três dentes podres - QUAL O PROBLEMA DE MEUS QUERIDOS NETOS E
SOBRINHOS?! NÃO AGUENTARAM A REUNIÃO COM SEUS ANTEPAÇADOS?! OU VIERAM TODOS SE
ACORRENTAR AQUI COMO EU?! SEM DÚVIDA SERÁ MELHOR DO QUE SOFRER O QUE ESTÁ
PRESTES A CAIR SOBRE TODOS VOCÊS! CRRU-CRE!
E
num acesso de histeria, Cronos riu.
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