sábado, 11 de agosto de 2012

Os Quatro Panteões || Capítulo 8 - Fuga e Rebelião

O outrora abrasador e fumegante reino no qual se encontravam havia congelado. Os outrora presos deuses do passado estavam livres e lutando para escapar. O mundo estava mudando afinal...... e era difícil, mesmo para um deus, não se sentir diminuído e fraco perante tão homérica peleja como aquela que ocorria no agora tornado em gélido mundo do Tártaro.

Enquanto o gigantesco titã Crius lutava cegamente contra a deusa da lua, o deus abissal conhecido como Thanatos elevava-se, movendo suas negras asas, erguendo com a mão esquerda uma espada de cabo negro e lâmina vermelha como sangue. Mirava no agora ferido rosto do gélido titã, seu rosto sério e fúnebre como o da própria morte.

Movendo-se ligeiramente, Thanatos disparou-se contra o inimigo, atingindo-lhe antes que esse pudesse reagir, parando do lado oposto a ele após desferir o ataque. Da espada um lodoso líquido vermelho gotejava, assim como do rosto do titã. Sangue? …. Não......... Dessa vez era veneno o que agora cobria o já danificado olho do oponente.

- Uma gota desse veneno é suficiente para matar cem mil homens em um instante. Mas é claro que não será o bastante para criaturas tão colossais... - comentou a alada divindade para Ártemis. - Mas vejamos se isso já basta para tirá-lo do caminho.

Mas Crius não gritara. Crius não gemera em dor. Crius sequer levou as mãos à ferida nem nada do tipo. Ele apenas olhara para quem o fizera, sem esboçar qualquer reação...

Seu olho direito ainda estava lá afinal! A pele ao redor dele apodrecera, quase derretera, mas o olho ainda estava lá...... ainda enxergava. Aquele olho claro como cristal, como uma esfera de vidro cristalino, de brilho e valor, cintilando sem fim em um rosto que os milênios esculpiram. E então ele falou, e sua voz, apesar de serena, ecoava por todo lado, profunda, como o som das ondas do mar, amplificado para soar tão alto quanto um trovão.

- Vocês nos prendem aqui......... Vocês nos banem.............. Vocês nos exilam............. O que fizemos? Apenas seguimos nosso líder............. Apenas defendemos o lugar no mundo que a nós pertencia.................. Nunca tivemos culpa dos pecados de Cronos.......... Mas mesmo assim nos baniram, tiraram-nos de nossos domínios que conquistamos por nosso próprio mérito................ como se nós fossemos os déspotas........ Como se nós fossemos os traidores............... Quando foram vocês que agora habitam o Olimpo que nos traíram........Mas agora cá estamos.......... As eras sempre mudam e os reinados nascem e morrem com elas.......

Com ambas as mãos agarrou a perna do ciclope que matara.

- As eras estão mudando novamente......... Todos nós já percebemos isso......... Resta saber quem reinará no final.

Arremessou com força descomunal o cadáver. Ambos os deuses que o enfrentavam foram atingidos e mandados longe. O defunto foi para á vários metros de distância, a cabeça congelada estando partida ao meio pelo impacto.

O titã agora voltava sua atenção para Apolo, que lutava com Hyperion em cima de um dos lagos congelados nos quais outrora a magma escorria. Lança dourada contra espada de luz.

Mas não pode interferir afinal. Dois braços surgiram para segura-lo. E mais outros dois, e mais três e mais quatro! Logo, dezenas de mãos seguravam-lhe, impedindo qualquer movimento. Era um dos Hecatônquiros que acordara, e os outros dois já levantavam. Havia algo de estranho neles no entanto. Suas cabeças pendiam caídas, seus olhos, fechados. Mas mesmo assim andavam. E detrás deles, movendo suas mãos como um maestro, lá estava. Hypnos, com sua cabeça também caída e seus olhos também fechados, mas parecia ser o único ali realmente acordado.

Não havia mais sinal de Perséfone e seus homens a essa altura e a plataforma pela qual vieram havia subido novamente.

Enquanto o titãs eram impedidos de sua fuga, as duas feras bestiais atracavam-se uma contra a outra, numa fúria que não era desse mundo nem de nenhum outro. O crocodilo colossal prendendo sua horrenda mandíbula com seu sem-fim de presas no sombrio chacal, que dessa vez não conseguira se esquivar. Qualquer homem, animal, monstro, criatura ou deus que ficasse preso dentre aquelas navalhas seria morto sem dúvidas, e mesmo assim o chacal continuava lá, sem parecer sentir dor ou sofrer qualquer dano. Conforme as presas se fechavam, seu corpo apenas se desfazia em fumaça, continuando ali, imóvel.

Heracles parecia estar tendo mais dificuldade que os já mais antigos e experientes deuses. Quando viu que o chacal estava imobilizado, ele tentou novamente atirar seus dados envenenados. Dessa vez o cão não poderia desviar, nem usar-se de suas garras ou dentes. E mesmo assim, nada aconteceu. Os dardos simplesmente o atravessavam, como se atravessassem uma nuvem de gás e fumaça negra.

- Não exaspere-se - disse uma voz que não sabia de onde vinha. Era-lhe familiar. Percebeu então que era o próprio crocodilo que falava, mas não com sua boca grotesca. Sua voz parecia vir de sua própria mente, de sua própria alma. - Ele pode tornar inatingível o próprio corpo por alguns minutos. Mas eu tenho o poder de segurá-lo ainda assim, até que acabe esse tempo. Tudo o que lançar agora será só algo a menos que terás em breve.

O chacal entretanto não iria se permitir a isso. Após encarar seus oponentes com seus olhos rubros, ele abriu sua boca e dela expeliu o que parecia ser o mesmo gás no qual ele mesmo estava se transformando. Esse entretanto era menos denso, sendo lançado diretamente na face do crocodilo. A fera rugiu, e o chacal aproveitou para tentar escapar. Não foi muito longe, entretanto. Seu reptiliano oponente moveu a própria cauda, girando para atingi-lo. O abalo foi colossal e dessa vez o sombrio animal não conseguiu transformar seu próprio corpo a tempo. Fora atingido afinal.

- Você não vai escapar, quem quer que seja! - gritou Heracles, tentando enquanto corria na direção de seu inimigo, espada em mãos, tentando se recompor, já que o choque do impacto também afetara a ele.

- Escapar? - perguntou a fera - Oh, não. Apenas não desejo estar no caminho quando ELE chegar.

O que? Pensara o guerreiro, mas não teve tempo de ouvir mais. Logo precisou desviar de duas dezenas de mãos que caiam em cima de si. Os Hecatônquiros continuavam a lutar intensamente contra o titã gelado, mesmo que suas cabeças permanecessem caídas e dormentes.

Não importasse quantas mãos Crius congelasse, havia outras três dezenas vindo para feri-lo. E Hypnos detrás de todos, conduzindo essa orquestra de guerra como uma grande sinfonia, prestes a chegar em seu clímax. Ártemis levantara-se e atirava flechas em Hyperion. Agora era Apolo quem jazia caído. Thanatos voava ao redor do irmão para protegê-lo, enquanto esse mantinha suas “marionetes” no combate. Dentre os ciclopes, Arges permanecia caído, Brontes estava morto. E uma nova figura caminhava calmamente de dentro do mesmo túnel do qual os titãs escaparam.

- Eles já estão vindo. - disse a figura calmamente.

Quem quer que fosse, não parecia maior que um ser humano comum. Seu corpo entretanto, nada assemelhava-se ao de qualquer homem que já tenha vivido. Era muito magro e sua pele era escamosa e de um roxo escuro. Possuía uma fina barba no queixo e cobria-se com uma capa prateada. Seu traço mais curioso no entanto era a cabeça, grande e inchada, totalmente desproporcional para o resto de seu corpo. Nela havia várias manchas escuras e curiosas protuberâncias que faziam-na parecer ainda maior. Seus olhos eram negros e miúdos e pareciam estudar a tudo e a todos ao mesmo tempo.

- Finalmente! - resmungou Hyperion antes de largar a batalha e correr. Conforme dava cada passo, sua velocidade aumentava e também o seu brilho, até que tornara-se apenas um feixe de luz, impossível de se alcançar ou de se parar.

Crius correu também. brindo espaço com toda a sua força por entre os Hecatônquiros, ele os deixou para trás, disparando com seus passos monstruosamente distantes uns dos outros.

O chacal novamente pôs-se a fugir, deixando para trás seus inimigos ainda mais rápido que antes. Sobek ainda tentou atingi-lo mais uma vez, mas o corpo do animal só se desfazia a cada impacto recebido por sua cauda, refazendo-se logo em seguida. Dessa vez ele estava atento e não se permitiria mais sofrer ataques inesperados.

Por fim, o estranho homem que chegara levantou voo. Não por ter asas como Thanatos, ele apenas levitava. Em pé, ereto, de braços cruzados e sem mover um único músculo, sem qualquer movimento, e mesmo assim levitava, cruzando todo o caminho que separava ele dos outros titãs em pouco tempo. Logo estavam os quatro reunidos, logo abaixo de onde ficava a grande plataforma de entrada, usada para chegarem ali.

Essa é a nossa chance! pensou Heracles ao vê-los juntos. A plataforma já subiu! Estão todos presos aqui conosco!

Ele era o mais próximo do grupo e correu na direção dos titãs. Não chegou muito longe entretanto. O homem da grande cabeça e pele roxa logo o avistou, e apenas levantando dois dedos, lançou destes um pequeno e fino feixe, tão prateado quanto sua capa. O feixe alcançou o herói em um instante, atravessando-o. O que sentiu naquele instante pareceu uma mistura de fogo e gelo, um corte brutal e delicado. Uma paralisia que envenenou, queimou e congelou sua mente em um único segundo. Mesmo sem parecer ter sofrido qualquer dano externo, Heracles tombou em meio a convulsões, sua mente confusa e ofuscada.

A figura de pele roxa novamente cruzou os braços, e agora não só ele como seus companheiros todos levitaram. Eles subiram e subiram, como se a plataforma que os levaria ainda estivesse ali.

O outrora semi-deus permaneceu caído, zonzo. Sua mente não parava de girar, seus olhos captavam imagens confusas e sons agudos. Ele logo cairia inconsciente e assim ficaria por algumas horas. O bastante para não ouvir quem mais estava saindo do túnel. O bastante para não ouvir os outros três titãs que, desviando-se de qualquer ataque desferido contra eles, também escaparam. O bastante para não ouvir o rugido atroz e medonho, mais aterrador que todo o fogo e sofrimento do Tártaro, mais aterrador que qualquer oponente que pensasse em enfrentar. O bastante para não ver o último a sair do túnel, cuja visão terrificante traria a qualquer um o pavor e o horror suficientes para queimar a própria alma.

Já estava inconsciente quando ele escapou. Já estava inconsciente quando ele, mais uma vez estava livre nesse mundo. Quando, após finalmente respirar seu primeiro trago de ar livre após milênios, Tifão urrou, para que todos os reinos e todos as terras e todos os mares do mundo ouvissem.

E Tifão urrou de ódio e fúria, e jurou vingança contra aquele que o aprisionou.

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