sábado, 11 de agosto de 2012

Os Quatro Panteões || Capítulo 4 - Hermes

Veloz como o vento, como um raio, como uma flecha. Não, nada disso poderia se comparar ao quão veloz era o mensageiro dos deuses.

“Ao distante sul”, dissera-lhe o velho fauno com quem falara um velho amigo do deus dos vinhos, “dizem que ele foi tão longe que atravessou as próprias fronteiras do mundo, mas nisso eu não acredito, não, quem iria festejar com ele se ele fosse tão longe? Você deve conhecer o “Dio”.

Sim, Hermes conhecia muito bem o “Dio”, infelizmente. Na verdade, todos conheciam. O imbecil parecia não perder uma única festa que acontecesse em qualquer parte do mundo, e parecia ter um fraco em fazer amizades com todo tipo de criatura estranha. Dizem que possuía contatos até mesmo vindos de outros panteões.

Atravessando nações inteiras a velocidades inimagináveis, o veloz acreditava estar finalmente alcançando seu alvo. Já havia sobrevoado todos os locais nas regiões mais ao sul do globo, obtido informações com um ou outro velho contato, já sabia bem aonde ia achá-lo.

Finalmente aterrissou. Estava agora numa bela praia, de um lado a areia branca e límpida, mais adiante alguns amontoados de pedras quadrangulares, grandes e cinzentas. Do outro lado, o vasto e perigoso mar que separavam aquela terra do gélido continente que havia no mais extremo sul do mundo.

Olhando em direção a terra, o veloz deus avistou alguns nativos, observando-o apreensivos. Eles então fugiram, talvez por medo da visão que acabaram de ter, talvez apenas para chamar mais homens para enfrentá-lo. Dependeria se saberiam ou não quem era esse ser que acabara de pousar. Essa era uma questão difícil de responder, já que Hermes bem sabia o quanto era famoso em várias partes do mundo. Mesmo não sendo dos mais poderosos entre seus iguais, sua lenda parecia ter proliferado consideravelmente para alguém que seu irmão Ares já humilhara em chamar um “semideus menor”. Havia muitos que cultuavam Hermes e clamavam por sua ajuda ultimamente, talvez justamente por ser um “deus menor”, deviam pensar que teria mais compaixão talvez, pensava. Era conhecido como o deus dos viajantes, dos diplomatas, dos comerciantes e até dos ladrões. Não entendeu bem o porquê desse último, talvez tivesse algo a ver comas 50 vacas que roubara de Apolo quando ainda era um recém-nascido.

De longe, dava para ouvir o barulho da cantoria e da festa, é claro que ele estava lá. O som parecia vi de dois quilômetros a norte. Dizem que todos os deuses possuíam sentidos superiores aos de qualquer mortal, mas o mensageiro do olimpo tinha sua visão e audição especialmente aguçadas mesmo entre eles. Assim, levantando-se ao céu mais uma vez, dessa vez apenas alguns metros, o suficiente para pairar, Hermes lançou-se na direção da cantoria, e em três segundos já lá estava.

E ali, estava ele também. Sim, sua aparência era inconfundível. Mesmo podendo mudar de forma como o pai, por algum motivo o deus dos vinhos sempre deu preferência às aparências mais bizarras.

- Irmãozinho!!! Você aqui??!!! Vem cá e bebe desse vinho maravilhoso que eu achei!!! Bom, acho que é vinho!!! Tava dentro de um pote largado por aí, mas o gosto é bom!!! HÁ!!! - gritou com alegria o homem à sua frente, sentado numa gigantesca almofada branca. Ele possuía um sorriso alegre e jovial, ainda que fosse tremendamente grande e gordo. Em uma mão segurava um cacho de uvas tão imenso que pareceriam tangerinas, em outro, uma taça dourada do tamanho de um balde. Seu cabelo possuía o formato de um imenso topete e era todo pintado de roxo, tendo também um curto cavanhaque de um amarelo vivo.

Cada vez que Dionísio aparecia para uma nova festa, arranjava um penteado novo. A única coisa que nunca mudava eram seus grossos mantos de pele tigre ou leão. O próprio Hermes costumava troçar dizendo que quanto mais ele viajava, mais ia misturando centenas de rostos, roupas, costumes e penteados de lugares diferentes, de todo o mundo, e dessa mistura toda é que ele decidia como ia se parecer.

Havia ao seu lado três ninfas, duas de suas servas, as Menades, e um sátiro extremamente bêbado cambaleando de um lado para o outro. Também estava lá um sujeito velho, careca e absurdamente gordo, que Hermes sabia ser Sileno, o antigo companheiro de festas de seu irmão.

Pelo visto, ele trouxera toda a sua “comitiva”, mais todos os moradores daquela região. A grande festa que ali ocorria passava-se numa grande clareira a céu aberto. Dezenas de nativos dançavam e mais outra dezena jazia caída, bêbada, alguns provavelmente mortos.

- Você anda sumido ultimamente Dionísio! - começou Hermes, tentando manter distância de um grupo de mulheres que por algum motivo, decidiram matar uma cabra e comê-la crua ali mesmo no chão.

- HÁ! Sim, mas sabe como é! Adoro viajar!!! Já andei pra todo canto, do mais distante leste até o novo mundo, mas sempre sobra um cantinho hein?! HÁ ha Haa!! Falar nisso, me empresta o seu caduceu? O Sileno aqui tá dizendo que nem com uma arma divina eu consigo acertar o Olimpo se mirar daqui! Vou mostrar pra ele!!

- Por mais que eu queira te ver estragando meu símbolo divino Dio, tenho assuntos mais importantes aqui. Zeus quer que...

- Sim, sim, sim, o cara de lagarto vindo do Nilo e a tal da aliança.... To sabendo! - comentou calmamente o deus dos vinhos enquanto bebia mais uma taça e continuava a devorar seu imenso cacho de uvas. Sileno carregava uma taça e um cacho tão grandes quanto os de seu amigo divino, mas parecia ter se engasgado com eles e agora precisava de um centauro para fazê-lo cuspir o que quer que fosse.

- Vo-você........ Foi um dos seus contatos que te falou?

- Contatos? HÁ! Não, só uns amigos meus! É bom arranjar amigos por toda parte, vê? Dá pra fazer festas bem maiores!! HAA-HAA!! Mas falando nisso... - parou e bebeu outra taça inteira de vinho - já decidiram o que vão fazer com aquele tal do Loki?

- Hm, sabe dele também? - perguntou agora já sem surpresa o veloz deus.

- Pelo que aqueles anões que me vendem oliva andaram dizendo... Parece que o sujeitinho andou tramando alguma lá pelas regiões do Vesúvio! Mas sei lá.... Umas bruxas muito velhas que eu conheci na minha última festa falaram que o viram pra lá da Gália, e até capturaram um dos servos dele, quando a criatura tentou roubar a comida das malditas! Há! Só não me pergunta se é informação verídica!

- Vindo de você, é claro que não é... Mas enfim, já que você já sabe dos assuntos da convocação, e já que o velho pai me mandou ficar de olho em qualquer coisa suspeita, acho que não custa ir conferir, só me diga aonde é, vou e volto em meia-hora e...

- HÁ! Mas nem pense nisso, Hermes, meu querido! Já faz um bom tempo que não participo de uma boa ação, por isso, se tiver algo de mais nisso tudo - dizia enquanto suas Menades o levantavam - pode ter certeza de que eu vou junto!! Já se esqueceu da minha incomensurável força?!! SILENO!! PREPARA MINHA CARRUAGEM!!!!! E MEUS LEÕES!!!! E A COMIDA, VIAJAR ME DÁ FOME!!!!!

- Aahn... Dio, eu...

- Relaxa meu querido, eu sei que não sou tão rápido que nem um raio de luz como certos mensageiros que eu conheço... Mas os meus amiguinhos aqui são! - apontou para uma bela carruagem que Sileno e um bando de centauros estavam trazendo. Mais especificamente, para os quatro leões que pelo jeito iriam puxá-la. 

A algazarra geral parou, os nativos todos surpresos com o surgimento repentino de tais feras. As ninfas e sátiros se afastando para abrir passagem.

- Irmãozinho, quero que conheça minhas quatro feras sagradas e leais, os leões supremos: Makemake, o grandioso! Abel, o poderoso! Apu, o dourado! E o mais poderoso, o mais temível, o mais atroz..................... Fifi, o fofo!!

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