Veloz
como o vento, como um raio, como uma flecha. Não, nada disso poderia se
comparar ao quão veloz era o mensageiro dos deuses.
“Ao
distante sul”, dissera-lhe o velho fauno com quem falara um velho amigo
do deus dos vinhos, “dizem que ele foi tão longe que atravessou as
próprias fronteiras do mundo, mas nisso eu não acredito, não, quem iria
festejar com ele se ele fosse tão longe? Você deve conhecer o “Dio”.
Sim,
Hermes conhecia muito bem o “Dio”, infelizmente. Na verdade, todos
conheciam. O imbecil parecia não perder uma única festa que acontecesse
em qualquer parte do mundo, e parecia ter um fraco em fazer amizades com
todo tipo de criatura estranha. Dizem que possuía contatos até mesmo
vindos de outros panteões.
Atravessando
nações inteiras a velocidades inimagináveis, o veloz acreditava estar
finalmente alcançando seu alvo. Já havia sobrevoado todos os locais nas
regiões mais ao sul do globo, obtido informações com um ou outro velho
contato, já sabia bem aonde ia achá-lo.
Finalmente
aterrissou. Estava agora numa bela praia, de um lado a areia branca e
límpida, mais adiante alguns amontoados de pedras quadrangulares,
grandes e cinzentas. Do outro lado, o vasto e perigoso mar que separavam
aquela terra do gélido continente que havia no mais extremo sul do
mundo.
Olhando
em direção a terra, o veloz deus avistou alguns nativos, observando-o
apreensivos. Eles então fugiram, talvez por medo da visão que acabaram
de ter, talvez apenas para chamar mais homens para enfrentá-lo.
Dependeria se saberiam ou não quem era esse ser que acabara de pousar.
Essa era uma questão difícil de responder, já que Hermes bem sabia o
quanto era famoso em várias partes do mundo. Mesmo não sendo dos mais
poderosos entre seus iguais, sua lenda parecia ter proliferado
consideravelmente para alguém que seu irmão Ares já humilhara em chamar
um “semideus menor”. Havia muitos que cultuavam Hermes e clamavam por
sua ajuda ultimamente, talvez justamente por ser um “deus menor”, deviam
pensar que teria mais compaixão talvez, pensava. Era conhecido como o
deus dos viajantes, dos diplomatas, dos comerciantes e até dos ladrões.
Não entendeu bem o porquê desse último, talvez tivesse algo a ver comas
50 vacas que roubara de Apolo quando ainda era um recém-nascido.
De
longe, dava para ouvir o barulho da cantoria e da festa, é claro que
ele estava lá. O som parecia vi de dois quilômetros a norte. Dizem que
todos os deuses possuíam sentidos superiores aos de qualquer mortal, mas
o mensageiro do olimpo tinha sua visão e audição especialmente aguçadas
mesmo entre eles. Assim, levantando-se ao céu mais uma vez, dessa vez
apenas alguns metros, o suficiente para pairar, Hermes lançou-se na
direção da cantoria, e em três segundos já lá estava.
E
ali, estava ele também. Sim, sua aparência era inconfundível. Mesmo
podendo mudar de forma como o pai, por algum motivo o deus dos vinhos
sempre deu preferência às aparências mais bizarras.
-
Irmãozinho!!! Você aqui??!!! Vem cá e bebe desse vinho maravilhoso que
eu achei!!! Bom, acho que é vinho!!! Tava dentro de um pote largado por
aí, mas o gosto é bom!!! HÁ!!! - gritou com alegria o homem à sua
frente, sentado numa gigantesca almofada branca. Ele possuía um sorriso
alegre e jovial, ainda que fosse tremendamente grande e gordo. Em uma
mão segurava um cacho de uvas tão imenso que pareceriam tangerinas, em
outro, uma taça dourada do tamanho de um balde. Seu cabelo possuía o
formato de um imenso topete e era todo pintado de roxo, tendo também um
curto cavanhaque de um amarelo vivo.
Cada
vez que Dionísio aparecia para uma nova festa, arranjava um penteado
novo. A única coisa que nunca mudava eram seus grossos mantos de pele
tigre ou leão. O próprio Hermes costumava troçar dizendo que quanto mais
ele viajava, mais ia misturando centenas de rostos, roupas, costumes e
penteados de lugares diferentes, de todo o mundo, e dessa mistura toda é
que ele decidia como ia se parecer.
Havia
ao seu lado três ninfas, duas de suas servas, as Menades, e um sátiro
extremamente bêbado cambaleando de um lado para o outro. Também estava
lá um sujeito velho, careca e absurdamente gordo, que Hermes sabia ser
Sileno, o antigo companheiro de festas de seu irmão.
Pelo
visto, ele trouxera toda a sua “comitiva”, mais todos os moradores
daquela região. A grande festa que ali ocorria passava-se numa grande
clareira a céu aberto. Dezenas de nativos dançavam e mais outra dezena
jazia caída, bêbada, alguns provavelmente mortos.
-
Você anda sumido ultimamente Dionísio! - começou Hermes, tentando
manter distância de um grupo de mulheres que por algum motivo, decidiram
matar uma cabra e comê-la crua ali mesmo no chão.
-
HÁ! Sim, mas sabe como é! Adoro viajar!!! Já andei pra todo canto, do
mais distante leste até o novo mundo, mas sempre sobra um cantinho
hein?! HÁ ha Haa!! Falar nisso, me empresta o seu caduceu? O Sileno aqui
tá dizendo que nem com uma arma divina eu consigo acertar o Olimpo se
mirar daqui! Vou mostrar pra ele!!
- Por mais que eu queira te ver estragando meu símbolo divino Dio, tenho assuntos mais importantes aqui. Zeus quer que...
-
Sim, sim, sim, o cara de lagarto vindo do Nilo e a tal da aliança....
To sabendo! - comentou calmamente o deus dos vinhos enquanto bebia mais
uma taça e continuava a devorar seu imenso cacho de uvas. Sileno
carregava uma taça e um cacho tão grandes quanto os de seu amigo divino,
mas parecia ter se engasgado com eles e agora precisava de um centauro
para fazê-lo cuspir o que quer que fosse.
- Vo-você........ Foi um dos seus contatos que te falou?
-
Contatos? HÁ! Não, só uns amigos meus! É bom arranjar amigos por toda
parte, vê? Dá pra fazer festas bem maiores!! HAA-HAA!! Mas falando
nisso... - parou e bebeu outra taça inteira de vinho - já decidiram o
que vão fazer com aquele tal do Loki?
- Hm, sabe dele também? - perguntou agora já sem surpresa o veloz deus.
-
Pelo que aqueles anões que me vendem oliva andaram dizendo... Parece
que o sujeitinho andou tramando alguma lá pelas regiões do Vesúvio! Mas
sei lá.... Umas bruxas muito velhas que eu conheci na minha última festa
falaram que o viram pra lá da Gália, e até capturaram um dos servos
dele, quando a criatura tentou roubar a comida das malditas! Há! Só não
me pergunta se é informação verídica!
-
Vindo de você, é claro que não é... Mas enfim, já que você já sabe dos
assuntos da convocação, e já que o velho pai me mandou ficar de olho em
qualquer coisa suspeita, acho que não custa ir conferir, só me diga
aonde é, vou e volto em meia-hora e...
-
HÁ! Mas nem pense nisso, Hermes, meu querido! Já faz um bom tempo que
não participo de uma boa ação, por isso, se tiver algo de mais nisso
tudo - dizia enquanto suas Menades o levantavam - pode ter certeza de
que eu vou junto!! Já se esqueceu da minha incomensurável força?!!
SILENO!! PREPARA MINHA CARRUAGEM!!!!! E MEUS LEÕES!!!! E A COMIDA,
VIAJAR ME DÁ FOME!!!!!
- Aahn... Dio, eu...
-
Relaxa meu querido, eu sei que não sou tão rápido que nem um raio de
luz como certos mensageiros que eu conheço... Mas os meus amiguinhos
aqui são! - apontou para uma bela carruagem que Sileno e um bando de
centauros estavam trazendo. Mais especificamente, para os quatro leões
que pelo jeito iriam puxá-la.
A
algazarra geral parou, os nativos todos surpresos com o surgimento
repentino de tais feras. As ninfas e sátiros se afastando para abrir
passagem.
-
Irmãozinho, quero que conheça minhas quatro feras sagradas e leais, os
leões supremos: Makemake, o grandioso! Abel, o poderoso! Apu, o dourado!
E o mais poderoso, o mais temível, o mais atroz.....................
Fifi, o fofo!!
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