Lembrava-se de quando o enfrentou.
Lembrava-se de seus rugidos bestiais, do hálito quente e tóxico,
dos olhos vermelhos e vorazes. Dos SEIS olhos vermelhos e vorazes.
Juntando-se de toda a sua força, vestindo-se em toda a determinação
que pudesse encontrar, ele subjugou-o e o carregou num caminho sem
fim até Euristeu. Cumprira a promessa que fizera ao deus dos mortos:
nenhum arranhão, nenhuma ferida naquele monstro.
E agora lá estavam mais um vez,
naqueles mesmos portões fúnebres, olhando-se para trás, o rio dos
mortos e a saída para a luz, olhando adiante, além dos portões,
havia apenas a morte. As razões eram outras e o tempo passara, mas a
besta rugia como antes furiosa. Cerberus tinha ódio e muita fome.
Heracles caminhou um, dois passos
adiante. Algo mudara, o cão o reconhecera. Agora a criatura
afastava-se, temerosa, ainda lembrava-se de como aquele ser tão
pequeno o derrotara e então o carregara por aí, como um brinquedo,
destruindo todo o seu orgulho....
A fera se calou.
- Ora, é surpreendente o impacto
que deixara para trás, herói do passado - dissera com uma voz
fúnebre a mulher que se aproximava. Vestia um belo porém
desoladoramente lúgubre vestido cinzento e uma coroa negra sobre a
cabeça. Junto de si trazia uma grande comitiva pavimentada de negro,
tantas eram as armaduras opacas e sombrias que os soldados usavam.
Também com ela vinham duas figuras encapuzadas, uma delas alto e
magro, a outra grande e bizarramente encurvada.
O mundo dos mortos costumava ser um
lugar eternamente sombrio para todos os que neles habitam, mas várias
luzes, archotes e outras formas de iluminação especial foram
preparadas de antemão para visitas “especiais” como aquela que
ali estava. Não só Heracles viera. Fazia também ele parte de uma
comitiva.
Lá estavam ao seu lado Apolo e
Ártemis, os gêmeos do Olimpo. O Sol e a Lua, o músico e a
caçadora, o ouro e a prata. Atrás deles vinha Sobek, o exótico
visitante das terras distantes ao Sul, e atrás dele, não um, mas
dois ciclopes completavam o grupo. Não eram ciclopes comuns, como os
brutais filhos de Poseidon, eram Arges e Brontes, da raça
primordial, filhos de Urano e cujo poder rivalizaria o de qualquer
deus do Olimpo.
Ares deveria ter vindo também, mas
este recusara-se furiosamente quando soubera que seria Apolo que
lideraria a o grupo. Reclamava também da presença constante da
entidade do Nilo, que para Ares, “já havia visto coisa demais”.
- Perséfone, senhora do reino dos
mortos - começou Apolo - estamos todos gratos que tenha vindo
mas.... esperávamos que seu senhor Hades também viesse nos receber
pessoalmente, visto o teor das mensagens que lhes enviamos.
Como criador de muitas formas de
arte e música, era ele o mais indicado a falar. Sempre com seu jeito
calmo e moderado, porém firme e imponente, o deus carregava consigo
uma armadura dourada e brilhante, criando um imenso contraste com o
ambiente em que se encontravam. Tinha um rosto jovem, com um queixo
quadrado e olhos de uma íris imensamente dourada, até mais do que
sua armadura. Na cabeça trazia um elmo que cobria os cabelos
castanhos, contendo o elmo três grandes rubis, cravejados nele como
três grandes pontas vermelhas a enfeitar sua já bela vestimenta.
Nas costas trazia uma aljava cheia de flechas, seu arco preso a ela.
Nas mãos carregava uma grande lança cuja ponta fora esculpida para
assemelhar-se ao busto de um grifo com o bico virado para cima.
Sua irmã gêmea Ártemis dividia
com ele alguns traços de seu rosto, embora seus olhos fossem
prateados. Era jovem e bela, seus cabelos negros presos em um
rabo-de-cavalo. Apesar disso, possuía uma face fechada e séria,
como uma guerreia em um campo de batalha. Trazia consigo uma armadura
mais leve que a do irmão, cinzenta e parecida com a de uma amazona.
A aljava que trazia nas costas era maior e possuía mais flechas que
a do irmão, sendo feita de couro, e na mão trazia um belo arco
prateado, feito para fazer semelhança às asas de um falcão.
- Meu marido, senhor dos mortos... -
começou Perséfone - não pode ser encontrado. Nem por seus mais
fiéis e poderosos servos. Ele partiu e seu castelo, sem dizer aonde
iria, levando consigo apenas seu Elmo do Terror, que lhe confere
invisibilidade não importa aonde esteja. Desconheço a natureza de
sua partida e peço que não me incomodem com perguntas vãs.
- Sabemos da natureza da visita dos
senhores do Olimpo à nossa terra - disse um homem encapuzado ao lado
da deusa. - um homem de aparência estranha e origem desconhecida foi
realmente encontrado por aqui. Não sabemos se era aquele que estão
a procura, talvez não o seja, mas com certeza era uma entidade
divina. Não era um morto e o próprio Cerberus recuou ao invés de
enfrentá-lo.
- E onde ele está agora? -
perguntou Ártemis, apertando o arco em sua mão, pronta para
qualquer batalha.
- Esse é o problema. Ele fugiu, mas
não para fora do submundo... ele foi por ali! - disse apontando na
direção por onde viera, além dos portões. Mais especificamente,
para um distante túnel, do qual parecia provir uma distante e fraca
luz vermelha - Ele foi para o Tártaro....
O silêncio percorrera os presentes.
Porque qualquer um, por qualquer motivo, mesmo um deus tão poderoso
quanto eles, poderia querer adentrar em tal vil local. O Tártaro era
a parte mais temível e perigosa de todo o submundo, povoado de
chamas incessantes, atravessado por diversos rios de lava escaldante.
Apenas os mais vis de todos os monstros mereceriam ficar ali presos,
e era lá que apenas os piores, ou pelo menos os mais poderosos
dentre os prisioneiros do Olimpo passariam suas eternidades, presos
pelos três Hecatônquiros que guardavam o local. Esses seres eram da
mesma origem que os ciclopes, mas conseguiam ser ainda muito mais
fortes e perigosos. Foi graças a seu apoio que Zeus derrubara o pai
e pusera-se no controle de todo o Olimpo. Foi graças a seu apoio que
Zeus mantinha seu domínio, e nem mesmo outro deus ousava sequer
questioná-lo.
Apolo parecia pensativo. Pensava em
todas as possibilidades, tentava entender o que ocorria, analisava
cada opção:
- Não.... é claro que isso....
não, não pode ser isso........... mas........ ah não...... Por
favor, minha senhora Perséfone, precisamos que nos leve para lá
imediatamente! Preciso ter certeza de uma coisa!
- Pois bem... - confirmou Perséfone
com um tom desinteressado e fúnebre que parecia aplicar a tudo.
Ambos os grupo então seguiram em
frente. Perséfone e os dois encapuzados guiando-os na direção
certa. A deusa era extremamente bela, seus cabelos eram negros como
os de Ártemis, porém soltos e cacheados. Era entretanto portadora
de um eternamente sombrio e funesto, mesmo seus olhos negros pareciam
não demonstrar qualquer emoção ou mesmo qualquer interesse em
algo. Sua pele era pálida como a neve.
Héracles ouvira de outros deuses a
história desta deusa. No passado, ela já fora a alegre e jovial
filha de Deméter, a deusa das terras e da fertilidade. Hades
entretanto sequestrara-a, trazendo-a para seus domínios para que
fosse sua esposa. Tentando evitar um grande conflito entre os dois
deuses, Zeus fizera um acordo no qual, durante seis meses do ano,
Deméter ficaria com sua filha nas terras da superfície, aonde esta
poderia voltar a sua antiga jovialidade e alegria. Nos outros seis
meses, a jovem retornaria ao marido para reinar como a senhora dos
mortos e do escuro.
Percebera agora que os dois
encapuzados que a ajudavam, haviam finalmente retirado suas capas e o
capuz e revelado suas verdadeiras aparências. Ambos eram imensamente
parecidos, como gêmeos, partilhando diversos traços físico, mas,
ao mesmo tempo, eram imensamente diferentes.
A figura mais alta e magra
revelou-se como um homem de aspecto frio e tão fúnebre quanto
Perséfone. Tinha grandes uma grande marca negra ao redor de cada
olho, tinha uma curta barba no queixo e um cabelo igualmente negro e
curto. Usava vestes negras que deixavam expostas suas costas, das
quais saíam curtas asas negras como as de um corvo.
A outra figura, maior porém
imensamente encurvada, revelou-se um homem estranho. Seus olhos
permaneciam sempre fechados, mesmo que estivesse acordado e andando.
Suas vestes eram mais longas e de um claro tom de púrpura. Tinha um
nariz maior e estranhamente protuberante, um emaranhado cabelo loiro
e uma barba igualmente loira, longa e desarrumada, embora não
possuísse bigode. Na mão esquerda parecia carregar um estranho
pêndulo, enquanto na direita trazia uma bengala para se apoiar, já
que parecia que a qualquer momento cairia ali mesmo em sono profundo.
Apolo cochichara-lhe no ouvido que
aqueles dois na verdade eram Thanatos, a morte, e Hypnos, o sono.
Servidores diretos de Hades.
Adentraram as profundezas da
caverna, e após uma curta caminhada, o grupo entrou dentro de uma
grande plataforma de pedra, que começou imediatamente a descer
quando o último dentre eles nela pisou. Em um ritmo inicialmente
lento, e depois aos poucos acelerando, eles desceram até as
profundezas terríveis do Tártaro, tão distante das terras de Hades
quanto as terras da superfície o eram da morada dos deuses.
Quando finalmente a plataforma
abaixou-se para fora do teto daquele grande mundo escaldante, a visão
que era possível dali foi pior do que qualquer um dos presentes
poderia ter imaginado. Não só pelos ruidosos jatos de fogo e magma
fervente subindo de todos os cantos, saindo de crateras fumegantes
que proliferavam-se em qualquer espaço de terra que a lava não
engolira. Não só pelas sombrias plataformas de rocha e aço, firmes
e gigantescas, que davam entrada para os vários corredores de grutas
profundas nas quais os deuses do passado estariam aprisionados. Não
só pelos túneis que preenchiam as paredes desse gigantesco local,
de onde grotescos ruídos poderiam ser ouvidos. Não só pela grande
torre de vigilância localizada ao centro do local, ou pelos
poderosos Hecatonquiros que à frente dela se encontravam..... mas
pelo que havia ocorrido com eles.
Tão fortes... talvez até mais
fortes que os deuses, esses gigantes de dezenas de cabeças e de cem
braços eram ditos invencíveis. Mas mesmo assim lá estavam, caídos,
como se algo os tivesse nocauteado. Não pareciam ter grandes
ferimentos, mas mesmo assim permaneciam ali, imóveis, como se
tivessem sido vítimas de alguma bruxaria mais antiga e poderosa do
que o próprio tempo.
A plataforma finalmente descera até
uma das plataformas, cujo corredor dava direto a um grande arco de
aço. Além desse arco, ficava a maior porção de terra firme,
estando a torre no centro dela. Apolo correu na frente, Heracles e
Ártemis logo atrás seguidos dos dois ciclopes, de Hypnos e de
Thanatos. Perséfoneficara para trás, seus soldados a protegê-la.
Sobek caminhava calmamente na direção que os outros já seguiam.
O calor intenso do local poderia
derreter até os ossos qualquer mortal que lá pisasse desprevenido,
mas os deuses eram mais resistentes, além de Apolo possuir outras
formas de protegê-los de tal mal. Mesmo assim o calor e a
considerável ausência de ar respirável tornavam a caminhada muito
mais cansativa do que deveria ser. Heracles sentia o suor
escorrendo por sob seu manto de leão, que buscara na oficina de
Hefesto pouco antes de partir. Ficara muito feliz em recuperá-lo, e
temia que aquele calor já no primeiro dia o fizesse perde-lo. Fora
um presente de Zeus, assim como sua velha aljava de dardos
envenenados, uma nova espada e um novo arco, todos forjados pelo
ferreiro divino. Heracles decidira que não importava o que viesse,
ele estaria pronto e iria ser o vencedor.
Próximo dos Hecatônquiros jazia
também uma grande hidra negra, guardiã do Tártaro, que costumava
habitar os fossos de águas gélidas de uma outra porção de terra,
mais distante e que não era afetada pela lava e pelas chamas
incessantes. Ela não estava nesses fossos entretanto. Jazia bem
distante deles, com metade de seu corpo caído na lava e já
derretido por ela. O resto parecia ter uma grande ferida no pescoço,
como uma grande mordida de uma fera. Diferente dos Hecatônquiros,
ela chegara a lutar.
- Algo muito grande as feriu. Parece
ter sido algum tipo de lobo... ou cão. Não tão grande quanto o
Cerberus, mas ainda assim muito forte para derrubá-la. - comentou
Apolo quando chegaram até os caídos. Hypnos levantara o braço com
que carregava seu pêndulo, e então o balançou, de um lado para o
outro, de um lado para o outro. Lentamente, os três grotescos seres
foram acordando de seus estados letárgicos. Um dos monstros tentou
então falar alguma coisa, mas só conseguiu balbuciar algo com sua
voz gutural:
- Invasão.... invasão.... muito
rápido... muuui...to...
- Acalme-se meu amigo, precisa nos
dizer o que houve aqui. - disse Apolo.
Heracles então notou que o grande
Sobek, que finalmente os alcançara, havia parado e olhava fixamente
em algum ponto em direção a um dos túneis, o maior deles.
- Usava.... usava..... usava uma
más-máscara....... jogou um gás es-es.....tranho.....
Heracles aproximou-se do deus
crocodilo e olhou na mesma direção. O túnel era escuro, mas
finalmente pode vê-lo. Um par de olhos. Não eram vermelhos, nem
furiosos como os de Cerberus, mas havia algo neles. O dono desses
olhos, quem quer que fosse, parecia possuir um poder muito maior do
que o cão de três cabeçar jamais tivera.
- Foi para... para as
ceeeelaaaaaas...... matou...... matou a hidra.......... virou.......
virou um....
Os olhos se aproximaram e seu dono
tomou forma. Era um imenso chacal negro. Suas orelhas longas e
pontiagudas. Seu focinho também longo. Havia grande aro dourado ao
redor de seu pescoço e possuía o penetrante olhar da morte. Sobek
parecia conhece-lo.
- Ele os libertou...... ele os
libertou! Libertou! OS TITÃS FUGIRAM!!!!!!
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