sábado, 11 de agosto de 2012

Os Quatro Panteões || Capítulo 6 - Nos Portões da Morte

Lembrava-se de quando o enfrentou. Lembrava-se de seus rugidos bestiais, do hálito quente e tóxico, dos olhos vermelhos e vorazes. Dos SEIS olhos vermelhos e vorazes. Juntando-se de toda a sua força, vestindo-se em toda a determinação que pudesse encontrar, ele subjugou-o e o carregou num caminho sem fim até Euristeu. Cumprira a promessa que fizera ao deus dos mortos: nenhum arranhão, nenhuma ferida naquele monstro.

E agora lá estavam mais um vez, naqueles mesmos portões fúnebres, olhando-se para trás, o rio dos mortos e a saída para a luz, olhando adiante, além dos portões, havia apenas a morte. As razões eram outras e o tempo passara, mas a besta rugia como antes furiosa. Cerberus tinha ódio e muita fome.

Heracles caminhou um, dois passos adiante. Algo mudara, o cão o reconhecera. Agora a criatura afastava-se, temerosa, ainda lembrava-se de como aquele ser tão pequeno o derrotara e então o carregara por aí, como um brinquedo, destruindo todo o seu orgulho....

A fera se calou.

- Ora, é surpreendente o impacto que deixara para trás, herói do passado - dissera com uma voz fúnebre a mulher que se aproximava. Vestia um belo porém desoladoramente lúgubre vestido cinzento e uma coroa negra sobre a cabeça. Junto de si trazia uma grande comitiva pavimentada de negro, tantas eram as armaduras opacas e sombrias que os soldados usavam. Também com ela vinham duas figuras encapuzadas, uma delas alto e magro, a outra grande e bizarramente encurvada.

O mundo dos mortos costumava ser um lugar eternamente sombrio para todos os que neles habitam, mas várias luzes, archotes e outras formas de iluminação especial foram preparadas de antemão para visitas “especiais” como aquela que ali estava. Não só Heracles viera. Fazia também ele parte de uma comitiva.

Lá estavam ao seu lado Apolo e Ártemis, os gêmeos do Olimpo. O Sol e a Lua, o músico e a caçadora, o ouro e a prata. Atrás deles vinha Sobek, o exótico visitante das terras distantes ao Sul, e atrás dele, não um, mas dois ciclopes completavam o grupo. Não eram ciclopes comuns, como os brutais filhos de Poseidon, eram Arges e Brontes, da raça primordial, filhos de Urano e cujo poder rivalizaria o de qualquer deus do Olimpo.

Ares deveria ter vindo também, mas este recusara-se furiosamente quando soubera que seria Apolo que lideraria a o grupo. Reclamava também da presença constante da entidade do Nilo, que para Ares, “já havia visto coisa demais”.

- Perséfone, senhora do reino dos mortos - começou Apolo - estamos todos gratos que tenha vindo mas.... esperávamos que seu senhor Hades também viesse nos receber pessoalmente, visto o teor das mensagens que lhes enviamos. 

Como criador de muitas formas de arte e música, era ele o mais indicado a falar. Sempre com seu jeito calmo e moderado, porém firme e imponente, o deus carregava consigo uma armadura dourada e brilhante, criando um imenso contraste com o ambiente em que se encontravam. Tinha um rosto jovem, com um queixo quadrado e olhos de uma íris imensamente dourada, até mais do que sua armadura. Na cabeça trazia um elmo que cobria os cabelos castanhos, contendo o elmo três grandes rubis, cravejados nele como três grandes pontas vermelhas a enfeitar sua já bela vestimenta. Nas costas trazia uma aljava cheia de flechas, seu arco preso a ela. Nas mãos carregava uma grande lança cuja ponta fora esculpida para assemelhar-se ao busto de um grifo com o bico virado para cima.

Sua irmã gêmea Ártemis dividia com ele alguns traços de seu rosto, embora seus olhos fossem prateados. Era jovem e bela, seus cabelos negros presos em um rabo-de-cavalo. Apesar disso, possuía uma face fechada e séria, como uma guerreia em um campo de batalha. Trazia consigo uma armadura mais leve que a do irmão, cinzenta e parecida com a de uma amazona. A aljava que trazia nas costas era maior e possuía mais flechas que a do irmão, sendo feita de couro, e na mão trazia um belo arco prateado, feito para fazer semelhança às asas de um falcão. 

- Meu marido, senhor dos mortos... - começou Perséfone - não pode ser encontrado. Nem por seus mais fiéis e poderosos servos. Ele partiu e seu castelo, sem dizer aonde iria, levando consigo apenas seu Elmo do Terror, que lhe confere invisibilidade não importa aonde esteja. Desconheço a natureza de sua partida e peço que não me incomodem com perguntas vãs.

- Sabemos da natureza da visita dos senhores do Olimpo à nossa terra - disse um homem encapuzado ao lado da deusa. - um homem de aparência estranha e origem desconhecida foi realmente encontrado por aqui. Não sabemos se era aquele que estão a procura, talvez não o seja, mas com certeza era uma entidade divina. Não era um morto e o próprio Cerberus recuou ao invés de enfrentá-lo.

- E onde ele está agora? - perguntou Ártemis, apertando o arco em sua mão, pronta para qualquer batalha.

- Esse é o problema. Ele fugiu, mas não para fora do submundo... ele foi por ali! - disse apontando na direção por onde viera, além dos portões. Mais especificamente, para um distante túnel, do qual parecia provir uma distante e fraca luz vermelha - Ele foi para o Tártaro....

O silêncio percorrera os presentes. Porque qualquer um, por qualquer motivo, mesmo um deus tão poderoso quanto eles, poderia querer adentrar em tal vil local. O Tártaro era a parte mais temível e perigosa de todo o submundo, povoado de chamas incessantes, atravessado por diversos rios de lava escaldante. Apenas os mais vis de todos os monstros mereceriam ficar ali presos, e era lá que apenas os piores, ou pelo menos os mais poderosos dentre os prisioneiros do Olimpo passariam suas eternidades, presos pelos três Hecatônquiros que guardavam o local. Esses seres eram da mesma origem que os ciclopes, mas conseguiam ser ainda muito mais fortes e perigosos. Foi graças a seu apoio que Zeus derrubara o pai e pusera-se no controle de todo o Olimpo. Foi graças a seu apoio que Zeus mantinha seu domínio, e nem mesmo outro deus ousava sequer questioná-lo.

Apolo parecia pensativo. Pensava em todas as possibilidades, tentava entender o que ocorria, analisava cada opção:

- Não.... é claro que isso.... não, não pode ser isso........... mas........ ah não...... Por favor, minha senhora Perséfone, precisamos que nos leve para lá imediatamente! Preciso ter certeza de uma coisa!

- Pois bem... - confirmou Perséfone com um tom desinteressado e fúnebre que parecia aplicar a tudo.

Ambos os grupo então seguiram em frente. Perséfone e os dois encapuzados guiando-os na direção certa. A deusa era extremamente bela, seus cabelos eram negros como os de Ártemis, porém soltos e cacheados. Era entretanto portadora de um eternamente sombrio e funesto, mesmo seus olhos negros pareciam não demonstrar qualquer emoção ou mesmo qualquer interesse em algo. Sua pele era pálida como a neve.

Héracles ouvira de outros deuses a história desta deusa. No passado, ela já fora a alegre e jovial filha de Deméter, a deusa das terras e da fertilidade. Hades entretanto sequestrara-a, trazendo-a para seus domínios para que fosse sua esposa. Tentando evitar um grande conflito entre os dois deuses, Zeus fizera um acordo no qual, durante seis meses do ano, Deméter ficaria com sua filha nas terras da superfície, aonde esta poderia voltar a sua antiga jovialidade e alegria. Nos outros seis meses, a jovem retornaria ao marido para reinar como a senhora dos mortos e do escuro.

Percebera agora que os dois encapuzados que a ajudavam, haviam finalmente retirado suas capas e o capuz e revelado suas verdadeiras aparências. Ambos eram imensamente parecidos, como gêmeos, partilhando diversos traços físico, mas, ao mesmo tempo, eram imensamente diferentes. 

A figura mais alta e magra revelou-se como um homem de aspecto frio e tão fúnebre quanto Perséfone. Tinha grandes uma grande marca negra ao redor de cada olho, tinha uma curta barba no queixo e um cabelo igualmente negro e curto. Usava vestes negras que deixavam expostas suas costas, das quais saíam curtas asas negras como as de um corvo.

A outra figura, maior porém imensamente encurvada, revelou-se um homem estranho. Seus olhos permaneciam sempre fechados, mesmo que estivesse acordado e andando. Suas vestes eram mais longas e de um claro tom de púrpura. Tinha um nariz maior e estranhamente protuberante, um emaranhado cabelo loiro e uma barba igualmente loira, longa e desarrumada, embora não possuísse bigode. Na mão esquerda parecia carregar um estranho pêndulo, enquanto na direita trazia uma bengala para se apoiar, já que parecia que a qualquer momento cairia ali mesmo em sono profundo.

Apolo cochichara-lhe no ouvido que aqueles dois na verdade eram Thanatos, a morte, e Hypnos, o sono. Servidores diretos de Hades.

Adentraram as profundezas da caverna, e após uma curta caminhada, o grupo entrou dentro de uma grande plataforma de pedra, que começou imediatamente a descer quando o último dentre eles nela pisou. Em um ritmo inicialmente lento, e depois aos poucos acelerando, eles desceram até as profundezas terríveis do Tártaro, tão distante das terras de Hades quanto as terras da superfície o eram da morada dos deuses.

Quando finalmente a plataforma abaixou-se para fora do teto daquele grande mundo escaldante, a visão que era possível dali foi pior do que qualquer um dos presentes poderia ter imaginado. Não só pelos ruidosos jatos de fogo e magma fervente subindo de todos os cantos, saindo de crateras fumegantes que proliferavam-se em qualquer espaço de terra que a lava não engolira. Não só pelas sombrias plataformas de rocha e aço, firmes e gigantescas, que davam entrada para os vários corredores de grutas profundas nas quais os deuses do passado estariam aprisionados. Não só pelos túneis que preenchiam as paredes desse gigantesco local, de onde grotescos ruídos poderiam ser ouvidos. Não só pela grande torre de vigilância localizada ao centro do local, ou pelos poderosos Hecatonquiros que à frente dela se encontravam..... mas pelo que havia ocorrido com eles.

Tão fortes... talvez até mais fortes que os deuses, esses gigantes de dezenas de cabeças e de cem braços eram ditos invencíveis. Mas mesmo assim lá estavam, caídos, como se algo os tivesse nocauteado. Não pareciam ter grandes ferimentos, mas mesmo assim permaneciam ali, imóveis, como se tivessem sido vítimas de alguma bruxaria mais antiga e poderosa do que o próprio tempo.

A plataforma finalmente descera até uma das plataformas, cujo corredor dava direto a um grande arco de aço. Além desse arco, ficava a maior porção de terra firme, estando a torre no centro dela. Apolo correu na frente, Heracles e Ártemis logo atrás seguidos dos dois ciclopes, de Hypnos e de Thanatos. Perséfoneficara para trás, seus soldados a protegê-la. Sobek caminhava calmamente na direção que os outros já seguiam.

O calor intenso do local poderia derreter até os ossos qualquer mortal que lá pisasse desprevenido, mas os deuses eram mais resistentes, além de Apolo possuir outras formas de protegê-los de tal mal. Mesmo assim o calor e a considerável ausência de ar respirável tornavam a caminhada muito mais cansativa do que deveria ser. Heracles sentia o suor escorrendo por sob seu manto de leão, que buscara na oficina de Hefesto pouco antes de partir. Ficara muito feliz em recuperá-lo, e temia que aquele calor já no primeiro dia o fizesse perde-lo. Fora um presente de Zeus, assim como sua velha aljava de dardos envenenados, uma nova espada e um novo arco, todos forjados pelo ferreiro divino. Heracles decidira que não importava o que viesse, ele estaria pronto e iria ser o vencedor.

Próximo dos Hecatônquiros jazia também uma grande hidra negra, guardiã do Tártaro, que costumava habitar os fossos de águas gélidas de uma outra porção de terra, mais distante e que não era afetada pela lava e pelas chamas incessantes. Ela não estava nesses fossos entretanto. Jazia bem distante deles, com metade de seu corpo caído na lava e já derretido por ela. O resto parecia ter uma grande ferida no pescoço, como uma grande mordida de uma fera. Diferente dos Hecatônquiros, ela chegara a lutar.

- Algo muito grande as feriu. Parece ter sido algum tipo de lobo... ou cão. Não tão grande quanto o Cerberus, mas ainda assim muito forte para derrubá-la. - comentou Apolo quando chegaram até os caídos. Hypnos levantara o braço com que carregava seu pêndulo, e então o balançou, de um lado para o outro, de um lado para o outro. Lentamente, os três grotescos seres foram acordando de seus estados letárgicos. Um dos monstros tentou então falar alguma coisa, mas só conseguiu balbuciar algo com sua voz gutural:

- Invasão.... invasão.... muito rápido... muuui...to...

- Acalme-se meu amigo, precisa nos dizer o que houve aqui. - disse Apolo.

Heracles então notou que o grande Sobek, que finalmente os alcançara, havia parado e olhava fixamente em algum ponto em direção a um dos túneis, o maior deles.

- Usava.... usava..... usava uma más-máscara....... jogou um gás es-es.....tranho.....

Heracles aproximou-se do deus crocodilo e olhou na mesma direção. O túnel era escuro, mas finalmente pode vê-lo. Um par de olhos. Não eram vermelhos, nem furiosos como os de Cerberus, mas havia algo neles. O dono desses olhos, quem quer que fosse, parecia possuir um poder muito maior do que o cão de três cabeçar jamais tivera.

- Foi para... para as ceeeelaaaaaas...... matou...... matou a hidra.......... virou....... virou um....

Os olhos se aproximaram e seu dono tomou forma. Era um imenso chacal negro. Suas orelhas longas e pontiagudas. Seu focinho também longo. Havia grande aro dourado ao redor de seu pescoço e possuía o penetrante olhar da morte. Sobek parecia conhece-lo.

- Ele os libertou...... ele os libertou! Libertou! OS TITÃS FUGIRAM!!!!!!

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