sábado, 11 de agosto de 2012

Os Quatro Panteões || Capítulo 3 - Sobek



“Odin, dos nórdicos, está morrendo...”

As palavras ecoaram na sala como uma onda de choque, inacreditável. Através das aberturas em sua grande máscara, Sobek analisou a reação de cada um dos presentes. Para ser franco, não esperava que uma reação muito grande, não desse panteão. Os olimpianos sempre foram famosos por seu orgulho e por não darem importância alguma à existência de qualquer entidade que não estivesse sob o controle do Olimpo. Mas parece que o destino do chefe supremo de um panteão inteiro era o bastante para que até mesmo eles percebessem a magnitude da situação.

- Pois que assim o seja então! Disse Ares enquanto calmamente se levantava e dirigia-se a Zeus. - Meu pai, esta é a nossa grande chance, vamos juntar nossas forças e atacá-los enquanto ainda estão muito ocupados e desorganizados. Vamos mostrar a esses usurpadores quem são os verdadeiros deuses desse mundo! Vamos...

- Ares! Exclamou Zeus. O velho deus não parecia nada contente, como percebeu Sobek ao vê-lo levantando-se ao seu lado. Sua longa barba branca não escondia o desgosto em seu rosto. Zeus possuía muitas falhas de caráter, mas já vivera o bastante para acumular a sabedoria necessária para saber o quão ruim um desequilíbrio deste entre os panteões poderia ser.

Ao redor da sala, o grande deus crocodilo percebeu que alguns deuses menores ainda cochichavam e apontavam a ele. Percebeu que era o maior ali, aqueles pequenos imortais deviam achá-lo exótico. Mas por hora isso não importava. Não gostava de estar ali, os costumes daqueles seres eram-lhe estranhos e exagerados, e sentia falta de seus templos, de seu sagrado rio e de seus servos reptilianos que nele viviam. Mas dívida é dívida, e ele tinha uma a pagar.

Há muito tempo atrás houve uma guerra em seu próprio panteão. Há muito tempo atrás houve uma guerra entre dois irmãos. E há muito tempo atrás ele escolhera o lado erado dessa guerra. Seth caíra, Hórus ascendera e era agora seu senhor. Por muito tempo Sobek acreditou que escaparia de suas punições, que seria mais astucioso, mas não pudera estar mais errado. Teria seu perdão no final, mas não sem antes compensar por seus ditos crimes, compensá-los com sua direta servidão.

E agora ali estava, em meio a mais uma missão que o sábio falcão lhe incumbira. A primeira fora ser incumbido de achar o grande Rá, que há tempos estava desaparecido do convívio daqueles que habitam o Egito. Mas fracassara e Hórus escolhera outro para a busca. Não fracassaria de novo, tudo estava preparado. A inédita aliança saísse como planejada, todas as peças estavam em seus lugares. Até mesmo deixara de lado sua coroa de Uraeus, para demonstrar maior humildade perante esses imortais que habitam ao norte.

- Pode parecer estranho, mas não estamos forjando essa aliança com o intuito de uma invasão! Prosseguiu o pai dos deuses, avançando alguns passos e ficando a beira do grande abismo que havia no meio do salão. - Estamos forjando-a como uma forma de nos protegermos!

- Mas, eu... Não entendo como o enfraquecimento de outro panteão poderia nos ameaçar? Perguntou a deusa Ártemis..

- Não são eles em si a ameaça! Prosseguia Zeus, seus olhos estudando as coloridas luzes que cintilavam para fora e para dentro do grande abismo. - Para que o funcionamento que mantem esse mundo possa prosseguir... Para que a existência dos seres eternos possa ser mantida... Um equilíbrio perfeito é necessário, entre todos os agrupamentos de deuses e seres de poder superior como nós. A maioria de vocês ainda não eram nem nascidos na época, mas quando os titãs caíram, eras atrás, um imenso desequilíbrio foi sentido por todo o universo!

Sobek também prosseguiu alguns passos, sua máscara de crocodilo cintilando como uma valiosa esmeralda perante todos:

- Se me permitem a palavra, meus senhores, tal desequilíbrio também ocorrera em meu panteão quando Osíris, o antigo senhor dele, fora morto por seu irmão Seth. O problema é que parece que, a cada geração que se passa os desequilíbrios que ocorrem parecem ser cada vez maiores. E quanto maiores forem os conflitos e violências envolvidas nesses eventos, pior será.

- Mas, se esse deus está morrendo tão repentinamente assim, deve ser de alguma... Causa natural, estou certo? Digo... Não há violência alguma envolvida nisso certo?

Quem perguntava era um deus grande e forte, com uma barba castanha e cabelos encaracolados. Estava no lado oposto da sala, um deus que de princípio Sobek não soube dizer quem era. Aprendera sobre as principais divindades daquela região antes de partir do Nilo, mas este não se encaixava em nenhuma das descrições que conhecia.

- Heracles... Respondeu Zeus, revelando-lhe o nome daquele novo deus. - Você está aqui a pouco tempo, é natural que não saiba como certas coisas funcionam, por isso que fique claro desde já: deus algum morre de causas naturais! Somos todos imortais, e é preciso um poder muito além do que nós mesmos podemos produzir para cessar com a vida de qualquer um de nós! O que quer que esteja acontecendo com Odin, não pode ser algo bom, pode até mesmo vir a nos afetar no futuro. É por isso que devemos estar preparados. É por isso que novas alianças necessitam ser forjadas!

Apontou para o deus egípcio ao seu lado quando disse isso. Olhares desconfiados ainda podiam ser percebidos dentre os que estavam presentes, mas isso não importava. Mesmo que Sobek desse a menor importância para o que pensam esses vindos além do mediterrâneo, já se acostumara com tal tipo de olhar a muito tempo.

Fora aliado de Seth afinal! O estranho e poderosíssimo deus das tempestades, com sua bizarra máscara púrpura de porco-da-terra, e suas ideias de guerra e conquista que convenciam seguidor atrás de seguidor no passado. Sobek já fora muito mais violento antes, já teve grandes desejos por batalhas e dominação. E isso lhe custara caro. Agora tudo é passado, Seth se fora, e o senhor dos rios finalmente encontrara sua paz interior nos anos que passou escondido em Al Fayum, a cidade dos crocodilos.

- De qualquer jeito, essa não é a única coisa que lhes venho informar. Prosseguiu o senhor do Olimpo - Existe algo de que precisam tomar conhecimento. De acordo com lorde Sobek que está aqui perante vocês, um grupo de seres estranhos, vindos do norte, andou invadindo territórios sobre nosso domínio, assim como territórios sob o domínio das terras do Nilo. Não acreditamos que seja coisa vinda do Odin, não é a cara dele agir assim. Creio, entretanto, que um certo deus do panteão deles possa andar tramando pelas suas costas, e se for quem eu estou pensando, devemos tomar cuidado.

- Creio que mesmo aqui entre os senhores, - Prosseguiu agora o próprio Sobek - devem conhecer um pouco da fama de Loki, dos nórdicos. O famoso senhor dos trapaceiros já muitas vezes agiu de forma ambígua contra seu próprio panteão, mas agora parece estar tramando nas nossas próprias terras também. De acordo com minhas fontes, ele foi pela última vez avistado atravessando o mediterrâneo a partir da região das terras vermelhas. Acreditam que se dirigia para o lugar que vocês chamam de Monte Vesúvio.

- A entrada para o submundo.... - Murmurou Apolo quando ouviu aquilo. Zeus sentou-se novamente, correndo seus olhos pela sala. Não era perceptível devido a máscara que usava, mas os olhos reptilianos do deus crocodilo estavam fixos nele, examinando cada movimento.

“É vital que me informe de todos os planos” dissera-lhe Hórus, antes de sua partida em direção àquelas terras, “Os olimpianos são violentos e voláteis. É vital que estejamos um passo a frente de todos nesse jogo se quisermos sobreviver, Sobek, as estrelas não mentem, nem minha mãe falha em ouvi-las. Faça tudo que lhe ordenarei, e se sobrevivermos, terá seu perdão e sua anistia”. Por fim, ainda o examinava quando o pai dos deuses respondeu ao filho:

- Sim Apolo, e o pior de tudo é que perdi contato com Hades. O cretino parece ter sumido do mapa recentemente já que pelo que me contaram, nem seus próprios homens sabem por onde anda meu irmão.... HERÁCLES!! - gritou.

- Sim, meu pai? - o chamado o pegou de surpresa.

- Ouvi dizer que não andava muito feliz com toda a velha monotonia do Olimpo. Pois bem, tenho uma missão a você...





Nenhum comentário:

Postar um comentário