Lembrava-se
como se fosse ontem. O Sol quente da Neméia queimando suas costas
enquanto as garras da besta fera quase arrancavam-lhe a pele, tamanha a
força com que o leão se debatia em seus braços. Flechas não fizeram-lhe
efeito algum, assim como nenhuma espada ou lança, aquele era o único
jeito. Com toda a sua força, Herácles estrangulara o gigantesco
leão-monstro que aterrorizava a região e trouxe paz para os campos.
Foi
ali que tudo começou, o primeiro de doze trabalhos que o elevaram acima
de qualquer outro herói. A pele indestrutível do leão foi tirada,
e Heracles a usou como capa, elmo e manto protetor, invulnerável a
qualquer ataque, a qualquer monstro. Heracles a usar por toda a sua vida
desde então.... mas não mais, seu pai dissera que não seria adequado.
A
verdade é que a vida mudara muito desde que morrera.... ou seria a
morte? Não, ele não podia mais morrer, ao menos não por meios
convencionais, não pelas mesmas formas que os mortais morriam. Era agora
como eles, era agora um deles! Como aqueles que um dia venerara,
cultuara e pedira proteção. Fora trazido ao Olimpo para viver com os
deuses, uma recompensa de seu próprio pai por tudo que fizera.
E
ali estava agora, ainda tentando se acostumar com a rotina de luxo e
prazeres diários dos quais só deuses podiam gozar, seu manto de
leão substituído por uma luxuosa toga, não que ele gostasse disso, não
poderia lutar decentemente com inimigo algum vestido assim.
-Ambrósia,
meu senhor? Perguntou o jovem e frágil Ganímedes. A aparição do jovem
surpreendeu um pouco a Heracles. Havia se afastado um pouco do salão de
festas olimpiano, sentado perto de uma das bordas do Monte Olimpo.
Gostava de apreciar aquela paisagem de vez em quando, a paisagem de toda
a Grécia, vista de cima. Também preferia afastar-se um pouco de toda a
balbúrdia e pompa dos salões divinos de vez em quando, não faziam seu
feitio.
-
Não obrigado, hoje eu não quero! Respondeu ao jovem criado. Ganímedes
não era um deus, mas ganhara deles o dom da imortalidade, já que eles
precisavam mesmo de um serviçal que os acompanhasse pela eternidade.
-
S-Senhor.... - balbuciou o jovem. Essa deveria ter sido a primeira vez
que alguém negava ambrósia por ali, pensou Herácles, justo esse que era
considerado o alimento divino.
-
Venha cá garoto, porque não arranja pra mim um pouco de carne dessa vez
certo? Disse-lhe o herói em um tom cansado. - Vamos variar um pouco,
pode ser carne do que quiser que seja, boi, cordeiro, faisão, pato,
águia, dragão, minotauro...... só me arranje um pouco de carne e algum
acompanhamento que pelos deuses, não seja ambrósia de novo.
- V-vou providenciar, meu senhor! Disse o jovem e saiu.
Porque
andava se sentindo tão estranho nos últimos tempos, pensou o agora
imortal Herácles enquanto continuava a encarar a paisagem. Não deveria
estar assim certo? Ganhara a dádiva da vida eterna do próprio Zeus,
vivia com deuses, talvez até pudesse ser considerado um agora, tinha uma
nova esposa, Hebe, e ela logo lhe traria filhos, gêmeos, lhe dissera!
Até já pensava em seus nomes, Alexiares e Anicetus, e Morfeu lhes
dissera que um dia eles seriam grandes, e representariam a juventude e
os esportes! Tudo estava perfeito! Tudo estava....... perfeito?
- É bom que tenha providenciado algo muito bom para voltar tão rápido! Reclamou Heracles quando ouviu passos às suas costas.
-
A não ser que queria comer minhas sandálias, acho que não posso te
oferecer muito! Exclamou o homem que se aproximava. Não era Ganímedes.
Era um homem alto e esguio, com um chapéu dourado na forma de um elmo
oval, com duas asas de pássaro como enfeite. Em seus pés, também haviam
pequenas asas, embora fosse difícil dizer se pertenciam às suas
sandálias ou ao seu corpo. - O seu pai quer vê-lo, Herácles.
Imediatamente, disse que é importante.
-
Ahh, Hermes...... Diga a ele que estou um pouco cansado para fazer mais
brindes agora! Reclamou - Vocês já estão festejando a quase dois dias
sem parar, e alguns já estavam se empanturrando de ambrósia bem antes de
começarmos.
-
É assunto sério dessa vez, Herácles. Todos foram chamados! Respondeu
enquanto apontava para o salão de festas. Sim, realmente, embora não
tivesse percebido antes, o lugar parecia vazio. Todo o barulho e música
cessaram. - Zeus estará esperando no salão de reuniões principal dos
deuses. Acho que já sabe aonde é!
Herácles se levantou, cansado, deixando para trás a vista do topo do Olimpo.
- Você não vem? Perguntou a Hermes quando viu que este não o acompanhava.
-
Já sei do que se trata, de qualquer jeito, tenho uma missão a cumprir.
Zeus me mandou chamar o Dionísio também, duro é saber em que parte do
globo ele foi parar agora! Riu calmamente enquanto se aproximava da
borda da montanha, preparando-se para alçar voo. - Ou talvez deva dizer
que duro é saber em qual dos 40 bacanais semanais que ele organiza é que
ele está no momento!
Em
menos de um segundo, o deus mensageiro alçou voo, rápido como um
relâmpago, e após um onda de vento que atravessou o local, desapareceu
em meio ao céu da alvorada. Diziam que Hermes era o mais rápido de todos
os deuses, mais rápido até que os relâmpagos de Zeus. Como mensageiro
dos deuses, ele viajava em questão de minutos por todas as terras sob o
controle daqueles que viviam no Olimpo.
Sem
tempo a perder, o outrora semi-deus caminhou em direção à morada dos
deuses. Atravessando o grande salão de festas, subiu então por uma longa
escadaria de pedra, passando no caminho por diversas portas que davam a
todo tipo de cômodo. Chegando próximo ao topo, ele tomou um corredor a
esquerda e no final deste, lá estava, o grande salão, que os olimpianos
usavam apenas para assuntos de maior importância e urgência, que
necessitavam da presença de todos os principais membros do panteão do
Olimpo.
Viu
que devia ser o último a chegar. O salão possuía um formato circular,
com imensos e confortáveis tronos espalhados em volta dele. No centro do
salão ficava o que parecia ser um grande abismo, onde estranhas luzes
de diversas cores cintilavam em confusos padrões. No lado oposto ao da
entrada, ficava o trono maior, pertencente ao grande senhor de todos os
ali presentes: Zeus, filhos de Cronos e Réia, neto de Urano e Gaia,
bisneto do próprio Caos. E ali ele estava, junto de outros 8 dos 12
principais deuses residentes no Olimpo e, para a surpresa
de Heracles diversos outros deuses menores, enfileirados ao lado dos
tronos, agrupando-se onde podiam. Alguns deles ele não conhecia, seus
rostos entretanto, pareciam familiares, com exceção de apenas um.
Esse
estava em pé, ao lado de Zeus, mais alto do que a maior parte dos
presentes ali. Havia uma estranha movimentação na sala. Deuses
sussurravam nos ouvidos uns dos outros, encarando escandalizados a
estranha figura desconhecida. Esse possuía o que parecia... um grande
elmo talvez? Ou seria uma máscara? O que quer que fosse, parecia uma
grande cabeça de crocodilo ou de alguma criatura do tipo.
Zeus levantou sua mão e todos se calaram. A perplexidade de todos os presentes parecia palpável. E então começou:
-
Sei que muitos foram pegos de surpresa, mas tempos difíceis exigem
medidas inusitadas. E se o que nos contaram for verdade, tempos mais que
difíceis virão. Senhores e senhoras do Olimpo, este é Sobek, do panteão
das terras que circundam o Nilo. Ele veio aqui como representante.
Representante da nova aliança que estamos para selar.
Sobek
fez uma estranha reverência. Os murmúrios na sala voltaram. Todos
pareciam estarrecidos, com a exceção de alguns deuses, alguns como Atena
e Apolo. Esses ficaram sentados, em silêncio apenas.
Mas
é claro, pensou Heracles, os mais importantes dentre os deuses do
Olimpo já devem saber. Aquilo seria apenas o “anúncio oficial”.
-
Mas grande Zeus. Começou o jovem Eros, do canto mais distante da sala. -
Que notícia é essa que pode ser assim tão importante a ponto de
tomarmos atitudes mais drásticas?
O homem com a máscara de crocodilo, então levantando-se de sua reverência, respondeu:
- A morte de um deus! A sala se calou! - Não um simples deus, mas o chefe de todo um panteão. Odin, dos nórdicos, está morrendo!
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