sábado, 11 de agosto de 2012

Os Quatro Panteões || Capítulo 16 - Nuvem Vermelha


Em um enxame interminável, como abelhas vermelhas atacando em nome da colmeia, as criaturas aproximavam-se, suas garras e presas prontas para o abate. Eram inúmeros e cada um teria facilmente o tamanho de um elefante africano. Suas cabeças eram rodeadas por chifres, como se portassem coroas de espinhos. Seus olhos eram do mesmo vermelho sangrento que as escamas de seus corpos.

- Dragões... - murmurou Ártemis.

E eles vinham, sem parar. Vorazes.

Poseidon tomou a dianteira. Postando-se diante dos outros deuses, ele levantou as mãos, como se quisesse invocar algo. Apolo e Ares pareciam explicitamente indignados pelo deus ter tomado a dianteira.

- Ele está convocando as forças dos mares para nos ajudar - disse a Heracles uma figura pálida, vestida de negro - Mas estamos em um ponto muito distante e elevado em relação às águas agora, vai demorar um pouco.

Era Morfeu quem lhe dirigia a palavra. O deus de cabeleira densa e esparramada por sobre o rosto e olhos completamente negros parecia ter percebido a dúvida do companheiro.

- Hum, vejo que foi mais rápido do que pensei - disse, quando um distante ruído começou a ser ouvido.

O ruído começou a intensificar-se mais e mais, até que finalmente revelou-se como um colossal turbilhão de água na frente deles. Um verdadeiro ciclone aquático. Poseidon parecia furioso e movia suas mãos conforme o turbilhão se mexia, controlando-o. Parecia entretanto ter alguma dificuldade em fazê-lo de tão longe dos oceanos.

O turbilhão atingiu em cheio a nuvem de criaturas, atravessando-a. Dezenas de dragões foram imediatamente sugados, arremessados e afogados naquelas águas, que já ficavam vermelhas ao misturarem-se com o sangue das criaturas, tamanha era a sua pressão e força.

Um dos dragões, por muito pouco, conseguiu escapar do ataque. Avançando e grunhindo, ele tentou aproximar-se do Olimpo, para então sobrevoá-lo como se tentasse descobrir uma presa para atacar. Abaixo dele, em meio aos deuses, Hélio levantou os punhos e os direcionou-os cerrados e unidos em direção a criatura acima. Após respirar profundamente, o deus exclamou algo ininteligível e de seus punhos um feixe de calor, mais claro que o próprio Sol, partiu em direção ao monstro. O raio durou apenas um segundo, durante o qual a noite pareceu ter virado o mais iluminado dia. No segundo seguinte, o dragão já caía, chamuscado e partido ao meio, pouco atrás dele. As criaturas não eram tão grandes quanto pareceriam de longe, cada uma tinha o tamanho de um touro.

- Isso não será o bastante - disse Atena para Poseidon - Essa foi só a primeira leva, mais deles estão vindo. Você não poderá conter todos assim, meu tio.

- Então trate de fazer a sua parte Atena! - rugiu o rei dos mares, enquanto concentrava seus esforços em derrubar todas as criaturas que via com suas águas.

Logo a previsão da deusa provara-se correta. Mesmo de noite, o horizonte inteiro tornara-se vermelho como o sangue. Eles não paravam de vir.

- Espero que não estejam pensando em se acovardar como da última vez! - disse uma voz grave e áspera atrás de Heracles.

Era Hefesto quem vinha. Grande, cinzento e deformado, Hefesto vestia uma pesada armadura cinzenta que ele mesmo construíra. Sua boca era entortada de um jeito estranho, deixando alguns dentes afiados a mostra no lado esquerdo do rosto, suas orelhas eram pontudas e possuía um longo e sujo cavanhaque crespo, era praticamente calvo, mas alguns poucos fios negros escorriam por debaixo do grande elmo negro que usava, era incrivelmente grande e forte, embora incrivelmente corcunda. Sobre os ombros, trazia um punhado de belíssimas armas, brilhantes, de todas as cores e formatos.

- Espero que não se importem, mas dei uns retoques em algumas de suas favoritas - disse o ferreiro, enquanto distribuía as poderosas armas entre os deuses.

Apolo recebera sua lança dourada, Atena uma espada prateada e um escudo, Ares uma espada grande e vermelha como sangue. Ártemis recebera seu arco e Poseidon, mesmo ocupado, recebera com uma das mãos um imenso tridente azul como a mais preciosa safira. Heracles recebera sua antiga pele de leão e uma espada nova, absurdamente resistente e pesada. Em pouco tempo, todos os deuses estavam armados.

- Esses dragões são crias espontâneas do próprio corpo de Tifão - explicou Morfeu a Heracles, que continuava parecendo um pouco confuso - Da última vez, eles nos atacaram também, mas a maior parte dos deuses se acovardou e fugiu do Olimpo. Não podemos nos dar ao luxo de tamanha vergonha dessa vez, e mesmo que quiséssemos, Tifão com certeza deve tê-los posicionado de tal forma para que não possamos escapar desse vez.

As novas levas de dragões se aproximavam mais e mais. Atena arremessou seu escudo, que com um estrondo, liberou uma devastadora onde de choque, matando dezenas das criaturas. Deméter já brandia um grotesco machado retorcido e Ares, com sua espada levantada ao alto, gritou a seus companheiros:

- AQUELE MALDITO QUE NÃO FIZER A SUA PARTE E DILACERAR PELO MENOS CEM DESSAS CRIATURAS, SERÁ SERVIDO COMO PRATO PRINCIPAL NO BANQUETE DA VITÓRIA QUE TEREMOS ESSA NOITE!!! HAAAAAARRRRRRRH!!!!!

Os dragões atacaram. Os deuses atacaram. Flechas, raios e lanças foram lançadas. Algumas criaturas conseguiram desviar, só para serem dilaceradas assim que chegassem perto.

Um dos dragões conseguiu escapar a tudo e finalmente fora o primeiro a pousar no Olimpo. Não durou muito entretanto, já que assim que firmara suas garras, teve o corpo partido pelo machado de Pã, o deus dos bosques, que então passaria os próximos cinco minutos pisoteando seu corpo com seus pés de bode.

Perto dali, Nomos, o deus das leis, chegava com uma grande luneta de ouro. Dizia que tal equipamento poderia ser usado para ver o que se passava no Monte Cássio para aqueles entre eles que não possuíssem o dom da visão avantajada.

Um segundo dragão conseguira atravessar por toda aquela tormenta e pousara a frente de Heracles. Ainda confuso devido a todo o caos que atravessara, a criatura tentou avançar contra o deus, que com um murro arrancou fora sua mandíbula. O dragão agonizara, rastejando em meio ao próprio sangue que jorrava de sua cara quando Heracles, com a espada, finalizou-o em um só golpe.

- Sorte nossa que não podemos fugir - disse Heracles a Morfeu - pois imortal ou não, prefiro perder a própria vida a fazer isso.

Enquanto isso, no Monte Cássio:

Mesmo no escuro, mesmo nas trevas da noite o que ocorreria ali naquele momento poderia ser visto por qualquer um a quilômetros de distância. Pois dos golpes de um provinha uma luz dourada e inacreditável, vinda de raios que ele arremessava com as próprias mãos, e do outro, uma intensa chama vermelha podia ser vista sendo cuspida, incessantemente enquanto tentáculos venenosos moviam-se para todos os lados, formando uma tempestade de espinhos. A luta já estava em andamento...
 

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