sábado, 11 de agosto de 2012

Os Quatro Panteões || Capítulo 13 - A Câmara Escura


Acordara em meio ao mais intenso breu. A respiração ainda arfante, a cabeça ainda girando. Hermes tombara em combate, mas não por ter em frente um inimigo mais forte, mas uma outrora aliada com os truques certos para pará-lo.

Sentia estar acorrentado, os braços unidos por uma pesada algema de ferro maciço, o corpo amarrado e preso a uma grande tábua vertical. Tentou se soltar, ao menos se mover, mas havia algo errado. Algo estranho aqui.

Ele já não sentia mais a sua força, a sua vitalidade, a sua velocidade. Era quase como se tivesse se tornado... um humano.

Abriu a boca, nenhum som saiu dela. Parecia fraco demais até para falar agora, talvez aquele gás ainda estivesse fazendo efeito?

Um cheiro mofado percorria aquele ar. Um ar abafado, quase contaminado percorria aquele lugar sombrio. Estranhos sons borbulhantes, silvos abafados e primitivos motores em funcionamento podiam ser ouvidos aqui e ali. Mas esses não eram os sons que o preocupavam: a alguns metros de distância apenas, baixo mas profundamente, um gemido ruidoso e áspero se propagava. Era humano, e ao mesmo tempo monstruoso, como um demônio agonizante que lutava por cada arfada de ar. Era aterrorizante até mesmo para um deus do olimpo.

Uma luz foi acesa. Não muito intensa a ponto de iluminar aquela estranha câmara, mas o bastante para que fosse possível enxergar nela.

Longas mesas cheias de livros, pergaminhos, tábuas e inscritos ancestrais ocupavam a maior parte daquela câmara. Tubos de ensaio com mais de dois metros estavam distribuídos próximos a cada mesa, dentro deles substâncias esverdeadas e gelatinosas.... e algo que parecia se mexer. Um esqueleto humanoide estava pendurado em uma das paredes, partes dos ossos removidas e largadas em uma mesa próxima, junto a meia dúzia de pergaminhos. Uma estranha máquina cinzenta emitia os ruídos de motor. E os sinistros gemidos revelaram-se proveniente de algo escondido sob um longo manto negro. O que quer que fosse, parecia estar depositado sobre uma das mesas, mas o manto cobria-o por completo. Só o que se via eram misteriosos fios saindo por sob o pano, ligando-o a áreas da câmara as quais Hermes não podia ver de onde estava.

- Já me perguntava quanto tempo ficaria dormindo querido - disse-lhe uma voz feminina às suas costas - seria um problema se estivesse morto sabe, meu aliado gosta de suas cobaias ainda vivas para que tudo dê certo.

Essa voz....

- Nem tente se esforçar agora, queridinho. Meus venenos vão te manter quietinho por um bom tempo ainda. Não há nada que possa fazer! hihihi!

Era Éris, a deusa do caos. Uma deusa do Olimpo. Do Olimpo, assim como ele! Quis gritar, quis falar alguma coisa, ao menos perguntar porque ela os traiu. Mas nada conseguia sair de sua boca.

A deusa caminhou desajeitadamente até a coisa sob o manto que gemia. Continuava nua, como antes, carregando erguido o pomo dourado do caos em sua mão como se o mostrasse para todos. Até seu jeito de andar era caótico, tropeçando em seus próprios pés, talvez de propósito. Era como se gostasse de não fazer sentido algum, de faltar com qualquer lógica ou razão. Talvez os tivesse traído pela pura confusão que isso causaria afinal.

Ela removeu o manto negro de cima da mesa. Agora a criatura de baixo dele era visível. Por uma fração de segundo, Hermes achou que conhecia aquele vulto humanoide, que já o tivesse visto antes.... mas não, não era o mesmo. Era grande e possuía no peito as mesmas estranhas marcas que o outro, mas a máscara era diferente. Era definitivamente um dos deuses das terras do Egito.... mas não era aquele que os visitara recentemente. A máscara desse era púrpura, mas fina e alongada e definitivamente não era a de um crocodilo!

Os fios que outrora apareciam apenas saindo por debaixo do pano revelaram-se estar ligados diretamente no peito daquele ser, profundamente encrustados em sua carne através de uma espessa agulha. Ele não se mexia muito, apenas tremia, de um jeito compulsivo e pavoroso. Uma aura sombria parecia recobri-lo.

- Aaaaah, você não imagina o trabalho que da trazer alguém dos mortos, ainda mais um sujeito do porte desse grandalhão aí! - disse uma segunda voz a se aproximar - É claro que os anões e os elfos escravos fazem todo o trabalho braçal e todos os cálculos e os experimentos mas... bem, sou eu quem comanda os malditos certo? Shehuhuh!

Dessa vez era Loki. Trocara a armadura de outrora por um elegante colete esverdeado. O sorriso malicioso por outro lado continuava intocado. Na verdade, ele e Éris mais pareciam um casal de assassinos sádicos com aqueles sorrisos.

- Nós demos muita sorte de escaparmos com você daquele pântano ligeirinho - disse-lhe Loki - o seu amigo gordalhão do cabelo roxo explodiu o lago inteiro e matou todas as minhas serpentes assim que viu que matamos um dos seus preciosos leões. Me pergunto aonde ele foi parar a essa altura do campeonato...

A criatura da máscara púrpura sacudiu-se furiosamente. A mesa em que estava parecia prestes a se quebrar a qualquer momento.

- Hum, acho que já está na hora! Retire os cabos e prepare tudo! - disse o deus das trapaças para Éris. Disse então virando-se para Hermes:

- É engraçado como, até a algum tempo atrás, eu nem saberia como fazer tudo isso. Sabe, nunca fui muito fã de magia ou ciência, apenas gosto de manipular os outros... até que um belo dia, meu velho amigo Bragi, o pomposo e deus do saber e da poesia, tentou se vingar de mim por uma de minhas velhas pegadinhas... sabe como é, uma historinha que eu inventei sobre a esposa dele, nada demais! Shehuhuhuhu! Mas enfim, ninguém me engana tão fácil, e agora ele está preso e tirando um belo “cochilo” num compartimento logo aí atrás de você - apontou para algum lugar atrás de ambos, para onde Hermes não poderia olhar preso ali.

Éris removera a agulha com os vários fios. Uma extensa cortina de fumaça negra cobriu a câmara, saindo da ferida.

- Enfim, dei um jeito de roubar o conhecimento do maldito... literalmente! Nada mais justo para compensar pelo velho ter me atacado oras! - prosseguiu Loki com seu discurso, ignorando a fumaça ao redor - Quando vi toda aquela informação a minha disposição, todo aquele saber disponível, somado ao meu próprio... que tolo seria se não aproveitasse!! Ainda mais agora, que estamos tão próximos de uma nova mudança nas eras, de um novo giro das rodas do tempo!!!

Éris trouxera uma pequena caixa, e dela retirou uma longa adaga dourada encravada de rubis. Entregou-a ao deus das trapaças que a examinou cuidadosamente.

- Aaah.... vejo que os anões fizeram um maravilhoso trabalho com essa aqui! Servirá bem aos propósitos que lhe daremos no momento.

Ele olhou para a criatura na mesa, depois para Hermes:

- Não se preocupe ligeirinho, logo chegará a sua vez de fazer parte do plano, por hora - e enfiou a adaga no peito da criatura, exatamente no mesmo ponto no qual os cabos estavam ligados - Por hora, o que precisamos é de um novo aliado para nossa pequena aventura!

A fumaça parou de sair, na verdade, começou a voltar para o corpo dele. Um poder inimaginável poderia ser sentido, mesmo de longe, emanando daquele ser. Através da máscara, podia-se ver um brilho escarlate a se intensificar. Os punhos da criatura cerrara-se.
- Lorde das chuvas, senhor das tempestades, Seth! LEVANTE-SE! - proclamou sorrindo o deus que acabara de acorda-lo - Trouxe-o de volta das cinzas e agora mais uma vez, viverá nos reinos da vida e dos mortais! Escute bem, pois tenho interessantes assuntos a tratar contigo!!

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