sábado, 11 de agosto de 2012

Os Quatro Panteões || Capítulo 12 - Terra de Crocodilos

As areias ancestrais que há milênios percorrem suas terras, os ventos intensos e a vastidão do deserto. O grande e esplendoroso rio que percorre o deserto, que o torna fértil, que o torna vivo.... o seu rio. Estava de volta, finalmente.

Caminhara pelo longo e infindável deserto como se tivessem passado-se anos desde a última vez. O vento sem fim trazia-lhe lembranças de muitas eras diferentes.

Não demorou até que chegasse a margem do rio. Diferente de qualquer mortal, tinha seus próprios meios de atravessar tais vastidões em tempos que não lhe fossem desgastantes. E agora, finalmente diante de tão translúcidas águas, ele se transformou.

Sobek voltou a tomar a forma de um gigantesco crocodilo do nilo, maior que qualquer outro réptil ainda vivo em toda aquela terra. Era aquela a sua forma ancestral, sua forma pura que representava sua própria essência e alma. Trazê-la a seu corpo físico e então reprimi-la, dando lugar a um corpo auto-contido, provinha de uma técnica que apenas os imortais que repousam nas areias do Egito conheciam. Uma técnica que trouxeram de outro mundo, para que reinassem neste como os mais poderosos seres... ou ao menos seria assim não fossem outros imortais vivendo a apenas um pequeno mar de distância.

Como o rei dentre todos os crocodilos, Sobek submergiu nas águas do Nilo, nadando contra a corrente, e mesmo assim mais rápido do que qualquer outra criatura de rio. Chegaria em suas terras em pouco tempo. Não haveria muito tempo a se perder entretanto, estivesse Ele esperando seu retorno.

A missão já tinha sido encerrada. Sabia é claro, que o mesmo não poderia ser dito de seus serviços para com o imortal a quem se juramentara.

Virando a Leste, logo encontraria as ruínas. Povos mais recentes a chamavam de Al Fayum, mas aqueles que primeiro encontrara ali a chamavam de Shedyet. Os nativos de lá não ousavam construir suas moradias muito perto das ruínas do antigo templo, talvez porque soubessem quem vivia lá. Aquelas eram as ruínas da Cidade dos Crocodilos, e também o lar de Sobek.

Havia um grande lago, no qual um dos braços do Nilo desembocava, e por onde Sobek adentrou perante o grande templo de sua terra. O tempo transformara muito daquele lugar em ruínas, e embora a maior parte de seu templo perseverasse, havia um ar solitário e antigo na vista de todas aquelas antigas construções que o rodeavam, agora quase todas em pedaços.  Mas isso não importava, não enquanto deixassem-no e a seus crocodilos ali e em paz.

Seus “filhos”, grandes e altivos, descansavam ao Sol quando o imortal submergiu. Alguns carregavam, dentre suas curtas e afiadas presas pequenos animais, capturados quando tentavam saciar-se nas águas. Todos pararam a vista daquele gigantesco réptil que emergia. As criaturas cercaram-no, e num desajeitado gesto, curvaram suas cabeças o máximo que conseguiam, tocando ao chão, numa estranha tentativa de mostrarem sua submissão. Mesmo os maiores dentre eles pareciam meros filhotes se comparados a grande forma animalesca que o deus tomara.

Vindos de dentro do templo, mais crocodilos chegavam, muitos com mais de 6 metros, embora ainda assim continuassem parecendo filhotes em tamanho quando perto do deus. Os crocodilos eram sagrados para os povos que construíram para ele aquele templo, e de certa forma também o eram para Sobek, que apreciava a companhia desses animais desde que pela primeira vez os encontrara. Tomara-os como simbolo e protegidos para si, assim como outros de seus irmãos o fizeram com diferentes animais. E agora era deles a forma que ganhava quando removia sua máscara, quando libertava seu verdadeiro poder.

- Está atrasado - disse uma voz sóbria e severa, vinda de cima do templo.

Os crocodilos pareciam confusos, Sobek não o estava. Já sabia quem era.

Não o respondeu imediatamente. Era difícil e desagradável falar nessa forma. Alguns deuses não encontravam problemas para fazê-lo, mas Sobek não era um destes, por isso apenas olhou para cima, encarando o grande falcão azul que pousara no topo da construção. Hórus possuía grandes olhos de falcão, que pareciam a tudo analisar e tudo saber, e ele agora parecia olhar diretamente para a alma de todos os seres ali presentes.

- Vamos. - disse o falcão, não com a boca, mas com uma voz que parecia vir de sua própria mente. A ave abriu suas majestosas asas e levantou voo, adentrando o templo em um rasante. O colossal crocodilo silenciosamente o seguiu, deixando seus protegidos animalescos para trás e também deixando para trás o seu rio.

Dentro do templo, havia um grande portal que não deveria estar lá. Parecia feito de mármore e possuía dois grandes portões que se abriram com a chegada de Hórus, mas estava no meio de um salão e portanto não poderia levar a lugar nenhum. Mesmo assim, os dois atravessaram-no.

Do outro lado do portão já não mais estava um salão, mas um corredor, repleto de hieroglifos. Ele dava para uma bela sala, adornada, cheia de estantes preenchidas por centenas de pergaminhos. Já não estavam mais em Shedyet. Não estavam nem próximo de lá mais. Ainda era o Egito, mas uma região diferente, aonde Hórus apreciava passar seu tempo. Estavam em sua biblioteca.

- Os homens, brutais como sempre, tentaram queimar essa bela biblioteca, mas eu e Tot  pudemos salvar uma boa parte dela e a transportamos para um local mais seguro, para a minha apreciação particular - disse o deus falcão.

Já não eram mais dois grandes animais, mas dois seres de forma humana, altos e com grandes máscaras cobrindo-lhes os rostos. Um usava a máscara verde de esmeralda de um crocodilo, o outro, a máscara de lápis-lazúli de um falcão.

Olhando-se pelas janelas da sala podia-se ver apenas areia e mais areia do deserto. Estavam em um local perdido em meio a ele, numa torre construída por Hórus para abrigar os tesouros e conhecimentos aos quais dava algum valor.

O deus-falcão sentou-se numa bela poltrona vermelha, de madeira fina e rente a uma pequena mesa na qual blocos de pedra cobertos por escritas antigas foram empilhados.

- Creio que suas previsões estavam erradas, milorde. - disse-lhe Sobek, fazendo uma reverência. - Loki não estava no Tártaro como temia, mas sim um dos nossos, o próprio Anúbis! Ele libertou alguns dos prisioneiros dos olimpianos, alguns dos mais fortes e fugiu com eles.

- Chame-me pelo meu nome, caro Sobek - respondeu-lhe Hórus, tomando em uma mão um dos blocos com escritas antigas - Eu imaginei que fosse Anúbis. Já a algum tempo ele veio se aliando com outros dois deuses para seus próprios fins.

- Mas...

- Você é inteligente, Sobek, creio que já tenha percebido quando o viu. Acha que seria sensato propor aos olimpianos uma aliança só para avisar que um dos nossos é que estava invadindo seus territórios e libertando seus prisioneiro? E por favor, não precisa se ajoelhar, tem uma cadeira logo ali.

Sobek sentou-se. Hórus não parecia muito preocupado enquanto examinava desatentamente a pedra que tinha em mão. Diziam que os muitos anos de estudos acumulados pelas eras tornaram o herdeiro de Osíris muito sábio e sereno. Apenas o deus Tot era capaz de competir com ele quanto a inteligência e conhecimentos do mundo, mas estratégia e liderança, Hórus claramente venceria.

Sua forma humanoide era mais baixa que a de outros deuses, embora ainda muito alto para padrões humanos. Usava uma túnica azul, sem qualquer adereço e mesmo pela máscara era possível ver seu grande e distinto olho esquerdo, exatamente os mesmo de quando mantinha-se na forma de falcão. O direito fora perdido no passado, e substituído por um amuleto sagrado que Osíris lhe trouxera, o Olho de Hórus.

- Loki é perigoso, é verdade, e ainda vamos ouvir muito dele antes que todo esse caos acabe......mas não era minha prioridade no momento. Loki ainda não fez seu movimento, mas já tenho me preparado cuidadosamente para quando a hora chegar, resta apenas sermos pacientes.

- E quanto a Anúbis, o que será feito em relação a ele? - perguntou-lhe o senhor do rio.

- Anúbis.... - Hórus virou a pedra antiga para analisar calmamente os escritos do lado oposto - Ele não nos deseja o mal, nem o deseja a ninguém específico. Não é o seu feitio. Mas se ele acreditar que está fazendo algo pelo bem comum deste mundo, dessa existência.... creio que seja plenamente capaz de tentar matar a todos nós, e de conseguir os aliados que lhe forem precisos para isso. É isso o que ele buscava no Tártaro, com exceção de um deles é claro.

- Está falando daquele maior não é? - perguntou-lhe Sobek - Aquele cujo rugido pode ser ouvido por todo o planeta quando escapou. Eu estava a quilômetros e também ouvi. Lembro-me que só pela sua face podia-se ver que era o mais perigoso dentre eles!

- Sim, eu ouvi também. Tifão, ou “Tífon” se preferir, os que o temem deram-lhe muitos nomes, nenhum o verdadeiro.

- Parecia-me furioso e descontrolado, Anúbis devia saber disso quando o soltou, então porque o fez. Ele não poderia aliar-se a eles naquele estado.

Os olhos de falcão voltaram sua atenção a ele:

- Não, suas razões foram diferentes para esse..... O desequilíbrio que vem sido profetizado para os últimos tempos, o que quer que seja está intimamente ligado a um confronto inerente entre os panteões de imortais que existem nesse mundo. Se eles puderem evitar esse confronto definitivo, mesmo que isso exija um massacre de um ou mais panteões, eles farão isso, Tifão é uma criatura poderosíssima... mas mesmo assim...... talvez ele seja apenas uma distração. Algo que ocupe o bastante os olhos de todos para que façam seu verdadeiro movimento.... As possibilidades são variadas aqui, terei que cogitar com muito cuidado antes de decidirmos nosso próximo movimento.

Hórus pegou um pergaminho. Nele haviam inscritos que não eram daquelas terras.

- Diga-me Sobek... o que achou deles? Dos imortais que habitam o Mediterrâneo?

- São poderosos, mas muito burros meu senhor Hórus. A arrogância e prepotência deles supera a de qualquer mortal ou imortal que eu já tenha conhecido.... Ironicamente, um deles que vivera com os humanos não parecia tão arrogante quanto os que há século lá vivem.... mas é tão burro quanto os outros, infelizmente.

- Sim.... De fato..... - Hórus prosseguiu - Os olimpianos são famosos por sua história violenta e seu hedonismo, não que nosso passado seja melhor que o deles mas sempre acreditei que se chegasse o dia em que um dos panteões trouxesse o caos para esse mundo, seria o deles.

- É por isso que Loki os atacou? É por isso que Anúbis libertou o inimigo deles? É Odin quem está morrendo, mas as atenções parecem cada vez mais voltadas para os subordinados de Zeus...

- Sem dúvidas. O panteão deles é grande e.. tem uma “tendência” a destronar seus próprios pais, tios e irmãos. Se Loki quiser causar uma guerra entre os panteões, é neles que deve focar e se Anúbis deseja pará-la.... será eles que deverão ser destruídos.

- E quanto a nós? - perguntou o deus-crocodilo.

- Não sei quanto a você, mas não pretendo ser destruído tão cedo - disse-lhe o deus-falcão olhando pela janela de sua biblioteca, para as perdidas areias sem fim. - Permaneceremos como “    aliados” dos gregos enquanto for conveniente, conseguiremos toda a informação que for necessária, mas se for preciso que todos eles Morram para que nós E o mundo possa viver.... então que seja, não permitirei que tenhamos o mesmo destino, custe o que custar.

Em todo o seu discurso, o deus não parecia mudar de emoção, tem alterava sua voz serena por um mínimo que fosse.

- Creio que não tenha ouvido, mas quando entrávamos pelo portal um novo rugido veio de Tifão. Não tão alto como o de antes, já que fora direcionado especificamente para o Monte Olimpo.

- O que?

- Ele desafiou Zeus, em tom alto e claro, para uma revanche de seu antigo confronto do passado, no Monte Cássio... As coisas estão para mudar.

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