As areias ancestrais que há milênios percorrem suas terras, os ventos
intensos e a vastidão do deserto. O grande e esplendoroso rio que
percorre o deserto, que o torna fértil, que o torna vivo.... o seu rio.
Estava de volta, finalmente.
Caminhara pelo longo e
infindável deserto como se tivessem passado-se anos desde a última vez. O
vento sem fim trazia-lhe lembranças de muitas eras diferentes.
Não
demorou até que chegasse a margem do rio. Diferente de qualquer mortal,
tinha seus próprios meios de atravessar tais vastidões em tempos que
não lhe fossem desgastantes. E agora, finalmente diante de tão
translúcidas águas, ele se transformou.
Sobek voltou a
tomar a forma de um gigantesco crocodilo do nilo, maior que qualquer
outro réptil ainda vivo em toda aquela terra. Era aquela a sua forma
ancestral, sua forma pura que representava sua própria essência e alma.
Trazê-la a seu corpo físico e então reprimi-la, dando lugar a um corpo
auto-contido, provinha de uma técnica que apenas os imortais que
repousam nas areias do Egito conheciam. Uma técnica que trouxeram de
outro mundo, para que reinassem neste como os mais poderosos seres... ou
ao menos seria assim não fossem outros imortais vivendo a apenas um
pequeno mar de distância.
Como o rei dentre todos os
crocodilos, Sobek submergiu nas águas do Nilo, nadando contra a
corrente, e mesmo assim mais rápido do que qualquer outra criatura de
rio. Chegaria em suas terras em pouco tempo. Não haveria muito tempo a
se perder entretanto, estivesse Ele esperando seu retorno.
A
missão já tinha sido encerrada. Sabia é claro, que o mesmo não poderia
ser dito de seus serviços para com o imortal a quem se juramentara.
Virando
a Leste, logo encontraria as ruínas. Povos mais recentes a chamavam de
Al Fayum, mas aqueles que primeiro encontrara ali a chamavam de Shedyet.
Os nativos de lá não ousavam construir suas moradias muito perto das
ruínas do antigo templo, talvez porque soubessem quem vivia lá. Aquelas
eram as ruínas da Cidade dos Crocodilos, e também o lar de Sobek.
Havia
um grande lago, no qual um dos braços do Nilo desembocava, e por onde
Sobek adentrou perante o grande templo de sua terra. O tempo
transformara muito daquele lugar em ruínas, e embora a maior parte de
seu templo perseverasse, havia um ar solitário e antigo na vista de
todas aquelas antigas construções que o rodeavam, agora quase todas em
pedaços. Mas isso não importava, não enquanto deixassem-no e a seus
crocodilos ali e em paz.
Seus “filhos”, grandes e
altivos, descansavam ao Sol quando o imortal submergiu. Alguns
carregavam, dentre suas curtas e afiadas presas pequenos animais,
capturados quando tentavam saciar-se nas águas. Todos pararam a vista
daquele gigantesco réptil que emergia. As criaturas cercaram-no, e num
desajeitado gesto, curvaram suas cabeças o máximo que conseguiam,
tocando ao chão, numa estranha tentativa de mostrarem sua submissão.
Mesmo os maiores dentre eles pareciam meros filhotes se comparados a
grande forma animalesca que o deus tomara.
Vindos de
dentro do templo, mais crocodilos chegavam, muitos com mais de 6 metros,
embora ainda assim continuassem parecendo filhotes em tamanho quando
perto do deus. Os crocodilos eram sagrados para os povos que construíram
para ele aquele templo, e de certa forma também o eram para Sobek, que
apreciava a companhia desses animais desde que pela primeira vez os
encontrara. Tomara-os como simbolo e protegidos para si, assim como
outros de seus irmãos o fizeram com diferentes animais. E agora era
deles a forma que ganhava quando removia sua máscara, quando libertava
seu verdadeiro poder.
- Está atrasado - disse uma voz sóbria e severa, vinda de cima do templo.
Os crocodilos pareciam confusos, Sobek não o estava. Já sabia quem era.
Não
o respondeu imediatamente. Era difícil e desagradável falar nessa
forma. Alguns deuses não encontravam problemas para fazê-lo, mas Sobek
não era um destes, por isso apenas olhou para cima, encarando o grande
falcão azul que pousara no topo da construção. Hórus possuía grandes
olhos de falcão, que pareciam a tudo analisar e tudo saber, e ele agora
parecia olhar diretamente para a alma de todos os seres ali presentes.
-
Vamos. - disse o falcão, não com a boca, mas com uma voz que parecia
vir de sua própria mente. A ave abriu suas majestosas asas e levantou
voo, adentrando o templo em um rasante. O colossal crocodilo
silenciosamente o seguiu, deixando seus protegidos animalescos para trás
e também deixando para trás o seu rio.
Dentro do
templo, havia um grande portal que não deveria estar lá. Parecia feito
de mármore e possuía dois grandes portões que se abriram com a chegada
de Hórus, mas estava no meio de um salão e portanto não poderia levar a
lugar nenhum. Mesmo assim, os dois atravessaram-no.
Do
outro lado do portão já não mais estava um salão, mas um corredor,
repleto de hieroglifos. Ele dava para uma bela sala, adornada, cheia de
estantes preenchidas por centenas de pergaminhos. Já não estavam mais em
Shedyet. Não estavam nem próximo de lá mais. Ainda era o Egito, mas uma
região diferente, aonde Hórus apreciava passar seu tempo. Estavam em
sua biblioteca.
- Os homens, brutais como sempre,
tentaram queimar essa bela biblioteca, mas eu e Tot pudemos salvar uma
boa parte dela e a transportamos para um local mais seguro, para a minha
apreciação particular - disse o deus falcão.
Já não
eram mais dois grandes animais, mas dois seres de forma humana, altos e
com grandes máscaras cobrindo-lhes os rostos. Um usava a máscara verde
de esmeralda de um crocodilo, o outro, a máscara de lápis-lazúli de um
falcão.
Olhando-se pelas janelas da sala podia-se ver
apenas areia e mais areia do deserto. Estavam em um local perdido em
meio a ele, numa torre construída por Hórus para abrigar os tesouros e
conhecimentos aos quais dava algum valor.
O deus-falcão
sentou-se numa bela poltrona vermelha, de madeira fina e rente a uma
pequena mesa na qual blocos de pedra cobertos por escritas antigas foram
empilhados.
- Creio que suas previsões estavam
erradas, milorde. - disse-lhe Sobek, fazendo uma reverência. - Loki não
estava no Tártaro como temia, mas sim um dos nossos, o próprio Anúbis!
Ele libertou alguns dos prisioneiros dos olimpianos, alguns dos mais
fortes e fugiu com eles.
- Chame-me pelo meu nome, caro
Sobek - respondeu-lhe Hórus, tomando em uma mão um dos blocos com
escritas antigas - Eu imaginei que fosse Anúbis. Já a algum tempo ele
veio se aliando com outros dois deuses para seus próprios fins.
- Mas...
-
Você é inteligente, Sobek, creio que já tenha percebido quando o viu.
Acha que seria sensato propor aos olimpianos uma aliança só para avisar
que um dos nossos é que estava invadindo seus territórios e libertando
seus prisioneiro? E por favor, não precisa se ajoelhar, tem uma cadeira
logo ali.
Sobek sentou-se. Hórus não parecia muito
preocupado enquanto examinava desatentamente a pedra que tinha em mão.
Diziam que os muitos anos de estudos acumulados pelas eras tornaram o
herdeiro de Osíris muito sábio e sereno. Apenas o deus Tot era capaz de
competir com ele quanto a inteligência e conhecimentos do mundo, mas
estratégia e liderança, Hórus claramente venceria.
Sua
forma humanoide era mais baixa que a de outros deuses, embora ainda
muito alto para padrões humanos. Usava uma túnica azul, sem qualquer
adereço e mesmo pela máscara era possível ver seu grande e distinto olho
esquerdo, exatamente os mesmo de quando mantinha-se na forma de falcão.
O direito fora perdido no passado, e substituído por um amuleto sagrado
que Osíris lhe trouxera, o Olho de Hórus.
- Loki é
perigoso, é verdade, e ainda vamos ouvir muito dele antes que todo esse
caos acabe......mas não era minha prioridade no momento. Loki ainda não
fez seu movimento, mas já tenho me preparado cuidadosamente para quando a
hora chegar, resta apenas sermos pacientes.
- E quanto a Anúbis, o que será feito em relação a ele? - perguntou-lhe o senhor do rio.
-
Anúbis.... - Hórus virou a pedra antiga para analisar calmamente os
escritos do lado oposto - Ele não nos deseja o mal, nem o deseja a
ninguém específico. Não é o seu feitio. Mas se ele acreditar que está
fazendo algo pelo bem comum deste mundo, dessa existência.... creio que
seja plenamente capaz de tentar matar a todos nós, e de conseguir os
aliados que lhe forem precisos para isso. É isso o que ele buscava no
Tártaro, com exceção de um deles é claro.
- Está
falando daquele maior não é? - perguntou-lhe Sobek - Aquele cujo rugido
pode ser ouvido por todo o planeta quando escapou. Eu estava a
quilômetros e também ouvi. Lembro-me que só pela sua face podia-se ver
que era o mais perigoso dentre eles!
- Sim, eu ouvi também. Tifão, ou “Tífon” se preferir, os que o temem deram-lhe muitos nomes, nenhum o verdadeiro.
-
Parecia-me furioso e descontrolado, Anúbis devia saber disso quando o
soltou, então porque o fez. Ele não poderia aliar-se a eles naquele
estado.
Os olhos de falcão voltaram sua atenção a ele:
-
Não, suas razões foram diferentes para esse..... O desequilíbrio que
vem sido profetizado para os últimos tempos, o que quer que seja está
intimamente ligado a um confronto inerente entre os panteões de imortais
que existem nesse mundo. Se eles puderem evitar esse confronto
definitivo, mesmo que isso exija um massacre de um ou mais panteões,
eles farão isso, Tifão é uma criatura poderosíssima... mas mesmo
assim...... talvez ele seja apenas uma distração. Algo que ocupe o
bastante os olhos de todos para que façam seu verdadeiro movimento....
As possibilidades são variadas aqui, terei que cogitar com muito cuidado
antes de decidirmos nosso próximo movimento.
Hórus pegou um pergaminho. Nele haviam inscritos que não eram daquelas terras.
- Diga-me Sobek... o que achou deles? Dos imortais que habitam o Mediterrâneo?
-
São poderosos, mas muito burros meu senhor Hórus. A arrogância e
prepotência deles supera a de qualquer mortal ou imortal que eu já tenha
conhecido.... Ironicamente, um deles que vivera com os humanos não
parecia tão arrogante quanto os que há século lá vivem.... mas é tão
burro quanto os outros, infelizmente.
- Sim.... De
fato..... - Hórus prosseguiu - Os olimpianos são famosos por sua
história violenta e seu hedonismo, não que nosso passado seja melhor que
o deles mas sempre acreditei que se chegasse o dia em que um dos
panteões trouxesse o caos para esse mundo, seria o deles.
-
É por isso que Loki os atacou? É por isso que Anúbis libertou o inimigo
deles? É Odin quem está morrendo, mas as atenções parecem cada vez mais
voltadas para os subordinados de Zeus...
- Sem
dúvidas. O panteão deles é grande e.. tem uma “tendência” a destronar
seus próprios pais, tios e irmãos. Se Loki quiser causar uma guerra
entre os panteões, é neles que deve focar e se Anúbis deseja pará-la....
será eles que deverão ser destruídos.
- E quanto a nós? - perguntou o deus-crocodilo.
-
Não sei quanto a você, mas não pretendo ser destruído tão cedo -
disse-lhe o deus-falcão olhando pela janela de sua biblioteca, para as
perdidas areias sem fim. - Permaneceremos como “ aliados” dos gregos
enquanto for conveniente, conseguiremos toda a informação que for
necessária, mas se for preciso que todos eles Morram para que nós E o
mundo possa viver.... então que seja, não permitirei que tenhamos o
mesmo destino, custe o que custar.
Em todo o seu discurso, o deus não parecia mudar de emoção, tem alterava sua voz serena por um mínimo que fosse.
-
Creio que não tenha ouvido, mas quando entrávamos pelo portal um novo
rugido veio de Tifão. Não tão alto como o de antes, já que fora
direcionado especificamente para o Monte Olimpo.
- O que?
-
Ele desafiou Zeus, em tom alto e claro, para uma revanche de seu antigo
confronto do passado, no Monte Cássio... As coisas estão para mudar.
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